Viagem de Santo António
As ceifas, em Manhouce… Antigamente, Manhouce primeiro viveu da pastorícia. Depois viveu da agricultura antiga, que era tudo à mão. Semeavam o centeio mais até ainda do que milho! Porque dava menos trabalho. O centeio semeia-se em Novembro (Outubro e Novembro) para colher em Junho. Em Julho é para malhar mas, para colher, em Junho. Eles faziam serviço comunitário. Isto é: Hoje é a tua ceifa? Vai toda a gente da aldeia à ceifa! Porque assim, dividido por todos, era mais fácil. Depois é uma ceifa daquele? Vai a aldeia toda para aquele!
Foi assim até que estavam as ceifas quase a acabar. Mas ficou a maior ceifa para o fim. Diz ele:
- Agora é que está mau… porque é preciso mais gentes, mais braços a trabalhar a terra, mais… Agora é que está mau… Como é que há-de ser?
Eram sempre duas pessoas que iam guardar os rebanhos. Duas pessoas. Disse:
- Olha, os pastores vêm ajudar a ceifa.
- E quem é que guarda o gado?
Diz ele assim:
- Pois, não sei… Quem há-de ser?...
Vai um assim mais esperto:
- Vocês, quando falta uma cabeça de gado, não vão rezar o responso ao Santo António e não lhe rezam para aparecer a cabeça de gado? É mandar o Santo António acolá!
E diz ele assim:
- E olha que tu tens razão… Mas como é que se há-de fazer? Ele não caminha!
- É prendê-lo a uma cabra, ou a um bode grande e mandá-lo para o monte, que ele guarda o gado.
Pronto. Assim foi. Combinaram todos… e vêm duas pessoas para a ceifa. (Elas também queriam ficar porque era uma ceifa que acabava mais depressa, mais cedo, e eles botavam a cabra ao forno e tudo. E depois, no fim, havia festa. Era logo. Era logo...) Então arranjaram o bode maior. Era o bode maior. Levaram uma cordinha fina mas comprida. E, dum lado, – começaram dum lado – botaram-lhe o Santo António às costas do bode, uns a prender e os outros a amarrar o Santo às costas do bode. Amarraram aquilo bem amarradinho e … e botaram o gado fora e botaram o bode!
- Vai! Guarda o gado! Hoje é por tua conta!
Pronto. E lá foi! E o bode lá foi para o monte. Pronto. Chegou-se ao monte… O bode sentia aquilo às costas, ia pesado… não estava bem… Começou aos pulos, a cabriolar por cima das fragas… Quebrou o Santo todo! O Santo ficou todo quebrado, não se aproveitou nada do Santo! Alguns ainda foram procurar, encontraram um niquinho dum pé, um niquinho da cabeça… mas não tinha mais nada! Quebrou o Santo todo. Pronto. Vieram embora. Diz:
- Não se diz nada. A gente vai para a festa agora, não se diz nada.
O gado veio à noite e eles contaram. Estão as pessoas à porta do curral e as cabras já conhecem o seu curral: entram e eles contam.
- Está tudo bem, está tudo certo: o gado veio todo.
Só atrás é que vinha o bode com a corda de arrastos! Mas Santo? Que é dele! Não vinha, não veio… Pronto.
Tudo passou. Foram para a festa, cantaram, brincaram… como quiseram. Pronto. Chegou-se ao dia 13. Tinham acabado as ceifas. O Santo António, o dia de Santo António, é dia 13. Chegou-se o dia 13. Dia 13 é dia de festa. O padre disse:
- Dia 13 é uma festa de Santo António! -avisou na igreja.
Pronto. Há uma comissão que faz o peditório e que organiza a festa… É uma comissão, são os mordomos. Os mordomos são os que fazem o peditório e organizam a festa. Mas faltava o Santo! E eles não sabiam como é que haviam de arranjar.
- Como é que se há-de arranjar?...
Vai um lá muito esperto:
- Olha… O marrequinha da Tia Júlia é pequenino e é gordinho, é coradinho, a quase como o Santo! Quase como o Santo! E se a gente lá fosse?
Foram lá dizer à senhora.
- O marrequinha da Tia Júlia… E olha que és capaz de dizer bem…
Foram lá dizer-lhe. Ele aceitou. Aceitou! Foram escondidos para a sacristia pôr o santo no andor. Puseram-no no andor. Ele, assentado, ia bem! Estava bem! E, de longe, era bonito, até parecia o Santo! Tinha o cabelo cortado à tigela… Mas as pernas não cabiam; ficaram as pernas de fora. Ficaram as pernas de fora, ficaram presas. Vai um assim:
- Vai buscar um lençol!
Amarraram-lhe um lençol e ficaram as pernas ao menos amarradas, cobertas com o lençol. Foram para a festa! Saiu a procissão e o marrequinho lá ia, todo coradinho! E o padre a rezar lá na procissão, e as raparigas a cantar… Pronto – fizeram a procissão!
Mas… Havia o cemitério. Eles deram a volta ao cruzeiro e depois havia o cemitério e o cemitério é quadrado: fazia uma esquina para o morro. E o morro encheu de silvas, que era um silvado enorme! Uma pessoa ainda passava: livrava da senda as silvas, ainda passava. Mas o andor, que era quatro? Tinha que passar a jeito? Eles viraram dum lado, viraram do outro, não passava… não passava… E a procissão toda parada à espera, o padre e tudo. E a procissão não passava… eles… romperam pelas silvas fora! Romperam – vumba! As silvas, meu amigo, rasgaram o lençol, rasgaram as pernas! Já era sangue a sair e ele estava para se querer queixar, vai um assim:
- Shhhh…
E ele aguentou. Aguentou. Não o deixou gritar, porque senão ele gritava mesmo! Depois lá conseguiram então ir até à igreja. Chegaram à igreja, foram fazer uma água com malvas. Foram para a sacristia fazer uma água com malvas para lhe lavar as pernas bem lavadinhas, e para curar. E desamarraram-no depois e ele, o santo, estava atrapalhado. Quando se viu em pé, fora do andor e em pé, diz assim:
- Puxa, que aqui nesta terra nem o Diabo pode ser santo!
Pronto. Mas para aquela vez valeu.
Mestre Silva, 2007, S. Pedro do Sul