Os sapatos
Na minha terra andávamos descalças, não é? De maneira que aqui ninguém andava descalço, mas a gente lá andávamos descalças. E eu vim para cá e o meu marido mandou-me fazer uns sapatos desses como as botas dos homens, deste cabedal grosso, e mandou pôr cardas por baixo. Quer dizer, destas cardas como os homens usavam antigamente por baixo. A casa era cimento, aquilo era tuca, tuca, tuca, parecia os cavalos na estrada! Eu digo assim… Ele chegou à noite do trabalho e eu digo assim:
- Estás a ouvir? Não calço mais os sapatos, porque eu esbarro na casa… -a casa era cimento por baixo. -Eu esbarro na casa.
- Não esbarras nada. Isso é para não se desgastar.
- Ai é? Então está bem.
Ele no outro dia foi para o trabalho e eu vou com um alicate e tirei as cardas todas, deixei as botas todas cheias de buracos por baixo! Todas cheias de buracos porque, claro, dos furos da brocha. E ele depois, ele diz assim:
- Então mas que é dos sapatos?
- Os sapatos tirei-os, já estou com os chinelos.
- Vai buscar os sapatos.
- Para quê?
- Vai buscar os sapatos.
- Mas o que é que tu queres aos sapatos? Os sapatos, calço-os amanhã.
Ele tanto disse para eu ir buscar os sapatos que eu fui buscar os sapatos. Eu ainda não conhecia bem… Aquilo ainda estava fresco… E eu digo assim:
- Ah, mas eu… Deixa estar os sapatos.
- Vai buscar os sapatos!
Fui buscar os sapatos. Quando eu digo assim:
- Porque olha, estão cheios de buracos. Eu já te disse que não quero os sapatos com brochas!
- Ai não? Então olha, vou-te mandar pôr umas solas grossas.
- Olha, se tu mandares pôr umas solas grossas que eu não seja capaz de andar com elas, faço-te o mesmo que fiz aqui aos pregos: arranco-as!
Mas depois então as solas lá andaram. Mas era: escorregava e era um barulho, que eu andava na estrada, parecia que era os cavalos! Truca, truca, assim…
- Então mas afinal eu ando para aqui… Venho para aqui, venho para aqui e venho de tão longe para aqui para andar aqui a fazer figura de parva, ou quê?
Depois tirei-lhe as brochas e ele fartou-se de ralhar. E eu disse assim:
- Mau, mau… Já estás a ralhar, estou-me a passar não tarda nada!
Maria da Restauração , Torres Vedras, Registo 2010.