Memoria Imaterial CRL
Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

M E M O R I A M E D I A

e-Museu do Património Cultural Imaterial

Caça do Javali na Serra Algarvia

Designação:  Caça do Javali na Serra Algarvia - Grupo de Caça e Pesca dos Morenos
Freguesia:  Santa Catarina da Fonte do Bispo
Concelho:  Tavira
Distrito:  Faro
Data de recolha:
2014
 

Dados de inventário
  • Caça ao Javali
  • O javali sempre fez parte da alimentação em toda a bacia do mediterrâneo. A caça ao javali resulta de um esforço colectivo que envolve uma logística particular e um conjunto de especialidades cuja origem podemos associar ao modo de vida das comunidades colectoras.
    A caçada foi filmada em Morenos, Santa Catarina da Fonte do Bispo, Tavira, com a colaboração do Clube de Caça e Pesca dos Morenos e do seu presidente Fernando de Jesus.

    A recepção dos caçadores implica a confecção de várias comidas tradicionais. A preparação do Javali também é mostrada, bem como um ritual de iniciação que é feito ao caçador que pela primeira vez caça um javali.

Caracterização
  • A montaria do javali resulta de um esforço coletivo que envolve uma logística particular e um conjunto de especialidades cuja origem podemos associar ao modo de vida de comunidades coletoras. O javali pode fornecer uma quantidade apreciável de carne. Sendo um animal gregário, uma estratégia de caça combinada entre batedores e caçadores pode resultar na morte de diversos animais, compensando o esforço coletivo.

    O evento inicia com os preparativos de receção dos caçadores. A partir das 5 da manhã, um pequeno grupo de organizadores reúne-se na sede e prepara uma série de comidas para alimentar os participantes antes do início da caçada, pois esta prolonga-se por várias horas. Estas comidas revelam a sua origem mediterrânica - Açorda d'Alho com Ovos, Fatias Douradas, Sardinhas Estivadas na brasa, Guisado de Galinha e Guisado de Javali. Por volta das 7 horas começam a chegar os participantes que se inscrevem na caçada. Entretanto vão chegando os matilheiros com as respetivas matilhas de cães pisteiros, ensinados para perseguir e sinalizar a caça.

    Alguns membros da associação, os postores, vão trocando informações com o coordenador da caçada que organiza a distribuição dos caçadores ao longo das "portas", lugares fixos espaçados 200 metros ao longo dos caminhos da área da batida, que cobre cerca de 500 hectares. As "portas" desenham uma armadilha no terreno onde os caçadores esperarão o aparecimento dos javalis acossados pelos batedores e respetivas matilhas.

    Por volta das 10 da manhã, com instruções precisas de colocação, os postores transportam os caçadores em carrinhas abertas até aos locais designados, enquanto 4 matilhas e matilheiros são largados em locais situados na borda da área de caça. A partir daí as matilhas são dirigidas para o centro da área batendo a caça em direção aos caçadores.

    No terreno reina o silêncio pontuado por latidos dos animais. Cerca de uma hora após o início da caçada, ouvem-se os primeiros tiros. A partir de um monte central a equipa de coordenação usa rádios para comunicar com os batedores. Este trabalho era antes assegurado por tocadores de trompa e outros instrumentos que usavam um código de sinais sonoros. Ao fim de duas horas havia 10 javalis mortos (segundo os caçadores, a caçada estava a correr bem). Duas equipas encarregam-se de recolher os animais mortos.

    De volta à sede, nos Morenos, os animais são descarregados e imediatamente se procede ao desmembrar e ao corte, com todos os caçadores a colaborar na transformação dos animais em pilhas de carne. Toda a carne é distribuída equitativamente em montes que são tantos quanto os participantes. Só depois da distribuição os participantes podem sentar-se a comer e a trocar as histórias da caçada. 

    Entre os participantes nesta caçada estavam rapazes e raparigas que acompanhavam os pais e avós e que disseram querer continuar esta atividade. Percebe-se, por alguns testemunhos destes jovens, que o fascínio por verem o "trabalho das matilhas" e a "morte limpa do bicho" são dois dos motivos para quererem ser caçadores. A presença de mulheres e raparigas caçadoras é revelador de como esta atividade está a deixar de ser uma coutada masculina.

    A caçada foi filmada em Morenos, Santa Catarina da Fonte do Bispo, Tavira, com a colaboração do Clube de Caça e Pesca dos Morenos e do seu presidente Fernando de Jesus. O Clube de Caça e Pesca dos Morenos foi constituído em 1998 e atualmente tem cerca de 37 associados. Gere a Zona de Caça Associativa- ZCA dos Morenos, com uma área de cerca de 1254 hectares. Este território abrange as freguesias de Tavira, Santa Catarina da Fonte do Bispo e Luz de Tavira e Santo Estêvão. Na ZCA dos Morenos, entre outros animais, caçam-se espécies sedentárias como lebre, coelho, perdiz, javali.

  • O javali sempre fez parte da alimentação em toda a bacia do mediterrâneo. Carne de caça muito apreciada, o javali não estava ao alcance da maior parte da população da serra Algarvia. Historicamente, a caça grossa e os respetivos habitats estavam reservados a uma elite. Estas reservas foram sempre objeto de contestação das populações limítrofes. Os javalis e os veados invadiam com frequências as terras agrícolas devastando culturas. A proibição de caça, sujeita a penas severas, tornava as populações indefesas. São várias as queixas apresentadas em Cortes portuguesas pedindo o fim de coutadas ou o levantamento da proibição de caça a animais que invadiam as culturas. Recolhemos vários comentários que demonstram que a caça grossa continuou a ser reservada "aos ricos" até ao séc. XX, prolongando um ideário de cavalaria de origem medieval, que via na caça grossa um treino de batalha e um privilégio reservado aos cavaleiros.
    A caça grossa, nomeadamente ao javali, foi sempre realizada como um esforço coletivo que envolve diferentes especialidades e funções. Vera Grilo sintetiza assim as operações de caça, a partir de relatos do séc. XIV:
    "... a caça no monte implicava também o envolvimento e a coordenação dos participantes no evento. As fontes, apontam para os monteiros, ora a cavalo, ora a pé, para os moços, para os escudeiros e ainda, para os moços do monte. Ao que parece, cada um teria as suas tarefas, bem definidas. Os moços e os escudeiros, acompanhavam sempre o monarca, para o servir de perto. Os monteiros a cavalo, tinham como função principal recolher as presas e correr nas armadas. Os monteiros a pé, estavam incumbidos de acompanhar as vozarias e de guardar as armadas. Os moços do monte, deviam fazer as vozarias e conduzir os cães. Por último, aos moços estava destinada a confeção da comida e a preparação dos alojamentos."
    Então como hoje a caça ao javali necessitava de um esforço colaborativo para contrariar a prudência e esperteza de um animal esquivo que se torna feroz quando encurralado. Ironicamente estas equipas eram constituídas por habitantes locais, proibidos de caçar para proveito próprio mas conhecedores dos habitats e dos hábitos dos animais.
    Hoje, o acesso à caça grossa encontra-se democratizado mas sujeito a um conjunto de leis que, apesar de se aplicarem a todos, continuam a merecer contestação.
    As reservas de caça são geridas por associações locais, as matilhas de cães pertencem a criadores que alugam o seu serviço em todo o território nacional e os participantes das caçadas sujeitam-se às regras das caçadas. As associações de caçadores gerem áreas importantes de mata e responsabilizam-se pela manutenção das populações de animais em níveis sustentáveis. Para tal promovem diversas operações no terreno, como limpeza de nascentes de água, instalação de comedouros e sementeiras de plantas para prover um complemento alimentar aos animais. Diversas associações utilizam tecnologias de vigilância vídeo para monitorizar as zonas que administram. Estas associações encaram-se como parceiros no esforço de preservação ambiental de vastas áreas do território nacional.

Identificação
  • Domínio
    • Competências em processos e técnicas tradicionais
  • Montaria do Javali
  • Grupo de Caça e Pesca dos Morenos
  • Não se aplica
  • Não se aplica
Contexto de produção
  • Grupo de Caça e Pesca dos Morenos
  • 1998
Contexto territorial
  • Morenos
Contexto temporal
  • Esporádica,
Manifestações associadas
  • Caça do Coelho, da Perdiz e outras.

  • Armas de fogo. Facas de Mato.

  • Zona de Caça Associativa- ZCA dos Morenos, com uma área de cerca de 1254 hectares.

Contexto de transmissão
  • Estado de transmissão
    • activa
  • Círculos familiares. Grupos informais. Associações de caça.

Direitos Associados
  • Lei de Bases Gerais da Caça (D.L. nº. 173/99, de 21 de Setembro) e posteriores regulamentações da prática da caça e delimitação das zonas de caça.

  • Membros de Associações de Caça.

Acções de Salvaguarda
  • Extinção de animais de caça, destruição de zonas protegidas.

  • As associações de caçadores gerem áreas importantes de mata e responsabilizam-se pela manutenção das populações de animais em níveis sustentáveis. Para tal promovem diversas operações no terreno, como limpeza de nascentes de água, instalação de comedouros e sementeiras de plantas para prover um complemento alimentar aos animais. Diversas associações utilizam tecnologias de vigilância vídeo para monitorizar as zonas que administram. Estas associações encaram-se como parceiros no esforço de preservação ambiental de vastas áreas do território nacional.

Equipa responsável
  • José Barbieri
  • José Barbieri
  • José Barbieri
  • José Barbieri
Arquivo
  • Não se aplica
  • 4/Tavira

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