MEMORIAMEDIA

e-Museu do Património Cultural Imaterial e Memória

nome:
Custódia Mariana
nascimento:
1927
freguesia: Cabeção
concelho:
Mora                                 
distrito:
Évora
registo: 2007
 
 

Inventário PCI
O príncipe lagarto

Mora

"O Príncipe Lagarto" - Desesperada uma princesa pede a Deus que lhe dê um filho. Nascerá então um lagarto com modos de gente, cujo encantamento só poderá ser quebrado através do milagre do verdadeiro amor.

 

Custódia Mariana; Cabeção; Concelho de Mora, Évora

Registo 2007.

Conto de animais. Classificado segundo o sistema internacional de Aarne-Thompson: ATU 433 B  O Rei Lindorm.

 

Classificação: Paulo Correia (CEAO/ Universidade do Algarve) em Julho de 2007
Transcrição
Príncipe Lagarto (1)

 

A Princesa Maria e o Príncipe Afonso viviam muito felizes com o seu povo. O povo era muito bom e eles estimavam-no muito. E também o povo tinha estima à Princesa Maria e ao Príncipe.

E então passava-se tempo e a Princesa Maria pedia a Deus que lhe desse filhos, que na’ tinha filhos. E o tempo passava, passava e ela não concebia. E ia sempre pedindo a Deus que lhe desse filhos e nada! Nada disso acontecia. Até que uma vez ela, descontente, triste e zangada com Deus gritou e disse:

 

– Ó Deus! Dá-me um filho! Nem que seja um lagarto! – E desabafou.

 

E ficou assim. E passou-se tempo, começou a andar doente. E o Príncipe falou com o doutor do palácio e disse:

 

– Tem de consultar a Princesa Maria, porque ela anda doente.

 

Ele foi consultá-la e, depois de a consultar, deu os parabéns ao Príncipe Afonso e à Princesa Maria porque ela estava grávida. E ela ficou muito contente! Ficou radiante porque ia ter um filho ou uma filha!

E depois passou-se o tempo, passou-se, passou-se e chegou a altura da criança nascer. E atão o médico lá estava, pra ajudar lá no que fosse preciso e, quando viu nascer um lagarto – um lagarto no lugar de uma criança –, pôs as mãos na cabeça e disse:

 

– Oh! Meu Deus! Não há memória de uma coisa assim!

 

A Princesa Maria ouviu aquilo… E o Príncipe disse assim:

 

– Um lagarto! Mande matar…Mande matar o bicho! – Disse o Príncipe.

 

E a Princesa Maria começou a chorar e a gritar e a dizer:

 

– Não! Não! Não quero que matem o bicho! Porque é como sendo meu filho! Tenho o quarto já arranjado e tudo, e ele vai ser dono do quarto. E vai ser dono de tudo! E é protegido em tudo!

 

E o Príncipe Afonso disse assim:

 

– É tudo como a Princesa Maria quiser! Como quiser dar a criação ao bicho! É tudo como quiser.

 

E ela hesitava… (Aquilo foi uma coisa do bom e do melhor, tudo ali pa’ esperarem uma criança…) E depois ela, de vez em quando, lembrava-se de ter feito aquele pedido zangada com Deus. De vez em quando, lembrava-se que tinha sido castigo de Deus. Mas tinha uma esperança…Enfim...

 

Quer dizer que depois o Príncipe começou a dizer à Princesa Maria:

 

– Fecha-se no quarto. E isto é segredo pra toda a gente. Para ninguém saber que temos um lagarto no lugar de um filho!

 

E ela anuiu. Quer dizer que andava tudo a esconder – pa’ não ver ninguém! Que era uma vergonha o povo saber que tinham um filho lagarto!

 

Lá no jardim o papagaio foi o primeiro a saber. Soube quando ouviu os criados lá do jardim dizerem assim:

 

– Nem é criança! É um bicho! A Princesa Maria na’… – E eles tudo admirado!

 

Mas o papagaio ouviu – o papagaio tem meia-fala – e disse assim:

 

– Ai, que desgraça! Que desgraça tão grande! Nem é criança! É um bicho!

 

O lagarto era só subir pas paredes acima e pelos tectos acima. O quarto tinha duas janelas e ele espalmava-se nas janelas. E passava por ali um bando de pombinhas (o jardim era mesmo na frente do palácio) que começaram a vê-lo lá espalmado na janela e notaram que havia ali qualquer coisa. Transmitiram aos outros, porque o jardim ‘tava cheio de bichos: tinha um pavão, tinha a cegonha, tinha o papagaio e isso… Quer dizer que, depois, ele na’ tinha sossego… Pois parece que as pombas que foram transmitir à cegonha e a cegonha às cegonhinhas e que estas passavam lá para verem-no ali espalmado … Aquilo era para ali uma coisa!

 

Mas atão o lagarto tinha já uma ama e esta tinha um ajudante pa’ a ajudar. E ele queria sair! Mal que a porta se abria um bocadinho iam logo, não o deixavam ir tão pouco para o jardim! Para ninguém o ver… E depois ele começou a chorar! As lágrimas caíam por ele abaixo e até chegavam ao chão. O chão todo molhado! E a ama começou a estar aflita e disse assim:

 

– Oh, Meu Deus! Atão, tu sofres?! Tu sofres!? Tu tens desgosto? Tu sofres?

 

E abanava a cabeça que sim. Abanava a cabeça que sim pois como não falava abanava a cabeça. E ela disse:

 

– Tenho que transmitir à Princesa Maria o que se passa!

 

Depois disse à Princesa Maria:

 

– Preciso muito de falar com a Princesa Maria, porque passa-se que o lagarto chora muito!

 

Princesa Maria – Chora muito?!

 

Ama – Sim! As lágrimas caem-lhe dos olhos pelo corpo afora. Até caem no chão! A gente anda cheios de pena do… Deixe-o ir ao menos para o jardim! Para ele distrair com as outras avezinhas e com as outras coisas.

 

A Princesa foi logo vê-lo e viu que, realmente, era assim como ela estava a dizer. Ele até molhava o chão com o choro!

 

Princesa Maria – Há aqui um mistério muito grande!

 

E atão disse assim:

 

– Deixem-se estar descansados que amanhã ele sai já daqui! Vai distrair pò jardim. Vou-lhe comprar uma farda.

 

Foi-lhe comprar uma farda – um boné, umas luvas e uns sapatinhos própriospara o que era. E fardou-o e arranjou-o e levou-o pò jardim. Ora ele todo contente! Era o pavão de roda dele – abria o leque, fechava o leque – e ele ria, ria contente, satisfeito!

 

Depois a Princesa Maria dizia-lhe assim:

 

– ‘Tá contente? – Tratavam-no por príncipe! – O Príncipe ‘tá contente?

 

E ele abanava a cabeça que sim! Que ‘tava! Pois ele queria dizer que estava muito contente. A cegonha passava com aquelas pernas altas, compridas, muito vaidosa, passava por ao pé dele e tudo… E ele ria-se de a ver. Era feliz! Ele andava naquelas coisas com as avezinhas, que até andava contente de ser livre! E ela começou a levá-lo quando havia aquelas festas, aquelas coisas de palácio… E ele, fardado e tudo no meio dos pais, portava-se como sendo uma pessoa – fazia continência, tinha aqueles gestos como se fosse uma pessoa.

 

Bem, o tempo passou-se. O tempo foi-se passando, foi-se passando e o povo começou tudo a saber! Até chegava já pa’ outros países e pra tudo... Os mensageiros passavam mensagens e iam mesmo aos outros países contar o que se tinha passado: que a Princesa Maria que tinha um filho que era… E depois tudo se impressionava com isso! Vinham pessoas dos outros países, tudo para ver se era verdade isso acontecer. Começou-se aquilo a espalhar e a quase pelo mundo inteiro. E depois chegou à altura – como casavam muito cedo os Príncipes nessa altura –, de falarem-no em casamento. Quer dizer que os mensageiros andavam pelos países e houve umas Princesas que iam lá pra… Mas era pra verem o que é que se passava, não era para se casarem com ele! Ia uma, iam duas, iam três... E chegaram a ir quatro. Quatro! Uma de cada vez. Chegavam lá, negavam-se a casar com ele, né? Negavam-se a casar com ele:

 

– Ai! Na’ posso! Na’ posso!

 

Mas havia na Austrália uma Princesa chamada Ana e tinha fama de ser das pessoas mais bonitas do mundo e bondosas. E essa, quando soube de ele ser rejeitado por aquelas quatro Princesas, pensou assim:

 

– Atão e eu? … Vou eu casar com o Príncipe Lagarto!

 

O coração dela era muito bondoso e teve pena dele. E disse para os pais:

 

– Vou casar com o Príncipe Lagarto!

 

Os pais acharam errado, mas ela foi casar com o Príncipe Lagarto. Foi para a Espanha para casar. Aceitou. A família ficou tudo muito contente! O pai e a mãe do Príncipe Lagarto por o filho ter quem o quisesse!

 

Bem, aquilo juntou-se tanta gente no dia do casamento que teve de ser ao ar livre. Fizeram um altar e estava o Senhor Padre pa’ fazer o casamento (e aquilo era uma enchente que uma coisa parva!). E depois disse assim o Senhor Padre para o Príncipe Lagarto:

 

– Aceita para sua esposa a Princesa Ana?

 

Ele abanou a cabeça que sim. E depois disse para a Princesa Ana:

 

– Aceita para seu esposo o Príncipe Lagarto?

 

E ela disse:

 

– Sim, aceito. – E beijou-o!

 

Agarrou-se a ele e beijou-o e o chão começou a tremer e o céu também começou tudo a tremer e as pessoas tudo aos gritos que era o fim do mundo! Mas aquilo foi só uns momentos, foi só uns segundos. Acalmou-se tudo, ficou tudo sossegado. E depois ficou tudo com os olhos no altar, mas o Príncipe Lagarto já lá na’ estava! ‘Tava lá era um lindo Príncipe! Uma pessoa famosa, uma pessoa bonita! Uma linda pessoa! E foi…Transformou-se aquilo num amor! Foi um sinal de amor e sinal que Deus transformou-o ali nessa pessoa! E atão conta a minha história que foram muito felizes e tiveram filhos lindíssimos!

 

Custódia Mariana, 80 anos, Brotas (conc. de Mora), Junho 2007.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Caraterização
Identificação
Tradições e expressões orais
Manifestações literárias, orais e escritas
O príncipe lagarto
1927
Custódia Mariana
Contexto de produção
Contexto territorial
Mora, Casa da Cultura de Mora
Cabeção
Mora
Évora
Portugal
Contexto temporal
2007
Hoje sem periodicidade certa. Encontros informais e iniciativas do Município de Mora e escolas
Património associado
Transmitidas aos serões, em quotidianos de trabalho e lazer.
Contexto de transmissão
ativa

Contadores de histórias participam em iniciativas do Município de Mora. São convidados para participar na inicativa Palavras Andarilhas. Vão a escolas, lares e bibliotecas. Participam em iniciativas do Fluviário de Mora e da Casa da Cultura. Destacam-se as seguintes actividades desenvolvidas desde 1999:

- Encontro de Contadores e Histórias - 1999 a 2005

- Ti Tóda - Conta-me eum conto, estafeta de contos - 2001 a 2004

- As lendas vão à escola - 2005

- O Talego Culto - 2007

- O Talego ambiental - 2007 a 2008

- Comunidade do Canto do Lume

Português
Equipa
Maria de Lurdes Sousa
José Barbieri
José Barbieri

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