A raposa e o lobo
«A raposa foi sempre um bicho muito velhaco. É um dos bichos mais velhacos que existem e então tentou enganar o lobo.
O lobo escondeu uma panela de manteiga lá no meio do mato, bem escondidinha, para a raposa não dar com ela. Mas a raposa, muita esperta, descobriu onde estava a panela. Descobriu onde estava a panela e então, um dia, chega ao pé do lobo e diz-lhe assim:
Raposa: – Ó compadre lobo, tu emprestas-me os teus sapatinhos para ir ter com um afilhado?
E o lobo diz assim:
Lobo: – Empresto.
Emprestou-lhe os sapatinhos e a raposa foi lá à panela da manteiga. Destapou aquilo tudo e – toca, toca, toca – comeu, encheu a barriga! Veio de lá e disse-lhe:
Raposa: – Olha compadre lobo, cá tens os teus sapatinhos e obrigado!
Diz-lhe o lobo assim:
Lobo: – Ó comadre raposa, então e como é que se chama o teu afilhado?
Raposa: – Ora, compadre lobo, é um nome muito esquisito! Não se pode dizer, é muito esquisito!
Lobo: – Ah! Não me digas que não se pode dizer o nome que prantaste ao teu afilhado!
Raposa: – Não, olha se eu te digo: "Comecete".
Lobo: – Ai, que nome tão bonito! "Comecete"?! Um nome muito bonito!
Bom, ao fim de uma temporada, diz-lhe a raposa outra vez:
Raposa: – Ó compadre lobo emprestas-me os teus sapatinhos, que vieram-me fazer um convite para ir ter um afilhado outra vez?
Lobo: – Empresto!
Bom, ele lá lhe emprestou os sapatinhos, a raposa lá foi ter um afilhado outra vez... Vem de lá, diz-lhe o compadre lobo outra vez:
Lobo: – Ó comadre raposa, então como é que se chama o teu afilhado?!
Raposa: – Ai, tem um nome muito esquisito! Um nome tão feio!
Lobo: – Então, mas não se pode dizer?!
Raposa: – Pode.
Lobo: – Então como é que se chama?
Raposa: – "Meiete".
Lobo: – Ai que nome tão bonito que tu arranjaste para o teu afilhado!
Aquilo passou, ao fim de uma temporada, a raposa outra vez:
Raposa: – Ó compadre lobo! Tens que me emprestar os sapatinhos! Então vieram fazer-me outro convite para ter outro afilhado! Ah, compadre lobo, você se calhar não tem nenhuns sapatos...
Lobo: – Não, eu empresto-lhe os sapatos!
Lá foi a raposa. Chegou lá à panela da manteiga, comeu o resto! Veio de lá e disse-lhe:
Raposa : – Vá, toma lá os sapatinhos compadre, que eu já... Agora já não me são precisos.
Lobo: – Então como é que se chama...? O nome do teu afilhado? Como é que se chama?
Raposa: – Ai, compadre! Tem um nome tão feio!
Lobo: – Então, mas como é que se chama?
Raposa: – "Acabete"!
Lobo: – Ai, que nome tão bonito que tu arranjaste para o afilhado!
Bom, lá ao fim de uma temporada, diz o lobo assim para a raposa:
Lobo: – Ó comadre raposa! Hoje vamos ter um jantar!
Raposa: – Ah, sim?!
Lobo: – Vamos!
Abalaram os dois todos seletras. Chegaram lá onde a panela estava escondida e o lobo vai dar volta àquilo...Já lá não tinha nada! E diz-lhe o lobo assim:
Lobo: – Ah! Comadre raposa! Tu é que me vieste comer a manteiga!
Raposa: – Não! Não fui! Não fui, não! Oh compadre lobo não fui!
Lobo: – Foste, foste! Porque olha os afilhados – um era "Comecete", outro era "Meiete" e outro era "Acabete" e foste tu que comeste a manteiga!
Raposa: – Não fui! Não fui! Olha, vamos fazer um contrato: está muito calor, vamos além para aquela soalheira, e deitamo-nos à soalheira. Esse que lhe suar o rabo, é que comeu a manteiga!
Lobo: – Bom, está bem!
O lobo anuiu, aquilo muito bem! Chegou lá, deitou-se ali na soalheira e a raposa também, ali ao lado dele. Dali a nada o lobo deixou-se dormir. Assim que se deixou dormir, a raposa foi, alçou a perna – trás! – mijou para o rabo do lobo! Disse-lhe assim:
Raposa: – Ó compadre lobo! Ó compadre lobo! Tu é que comeste a manteiga!
Lobo: – Não!
Raposa: – Foi! Vê lá se não estás todo suado!
Ora o lobo foi ver, estava todo molhado! Ela tinha-lhe mijado para o rabo! Estava todo molhado, disse assim:
Lobo : – É verdade! Então... mas... Tu é que...Eu não comi a manteiga e estou todo suado!
Raposa: – Não sei! Olha foste tu é que a comeste!
Pronto, esta está acabada!»
José Manuel, 87 anos, Brotas (conc. Mora), Junho 2007