O burro despertador
«Um homenzito andava de monte em monte a pedir trabalho. Num monte, aqui ao lado, disseram-lhe:
– Eh! Não tenho trabalho!
Até que chegou lá a um monte e disse:
– Ó senhor, atão não tem p'aí trabalho pa' me dar?
Patrão – Olhe, até, por acaso, tenho! Vamos lá a combinar. Olhe, dou de comer e dorme aqui na cocheira aonde tenho o burro. Mas olhe que aí há uma coisa... É que eu cá na' tenho relógio: o relógio é o me' burro. Quando ele zurra é para ir pegar ao trabalho, ó'póis ele, quando for à hora do comer, zurra e vem comer. O relógio é o burro.
Trabalhador – Bom, 'tá bem.
O gajo ficou... E disse ele:
– Ora esta! O relógio?! O burro é que é o relógio?! Há-de ser boa!
Bom, no outro dia, quando foi às oito horas (para irem pegar a trabalhar) o burro zurrou: ham! ham! ham!
Trabalhador – É pá! 'Tá me'mo certo! Ah, burro d'um filha da puta! Atão o burro 'tá me'mo certo!
Bom, lá andou trabalhando. Quando eram horas de comer o burro zurrava. Vinham comer e tal.
No outro dia de manhã, quando foi às sete horas o burro: ham! Ham! Ham!
Trabalhador – É pá! Burro d'um filha da puta, já adiantou uma hora hoje! Bom, atão, mas vou começar a trabalhar. O burro já zurrou...Oh!
Lá andaram trabalhando. Quando eram horas de comer o burro zurrava – vinham. Tudo muito bem.
No outro dia, quando foi às seis horas, o burro: ham! Ham! Ham!
Trabalhador – É burro daquele cabrão! Atão o burro já adiantou duas horas! 'Tamos marimbados co burro!
Bom, no outro dia, disse:
Trabalhador – Bom, hoje vou trabalhar. Arranjo lá um xipó, um cacete, trago-o aqui para o pé da cama. Quando ele zurrar, caio-me com ele. Deixei cá de ser o bonito.
Bom, no outro dia, quando foi às cinco horas o burro: ham! Ham!
Trabalhador – Ai é?! Já adiantaste três horas! Atão, espera lá!
Puxa do cacete, começa a medir no burro... P'as orelhas, era pra cabeça, era por onde quer que o apanhava! E taruz! O burro era já coice, peido que até dava, já todo maluco ali dentro!
O patrão 'tava lá deitado – os patrões nesse tempo dormiam todos nos montes – ouve aquele banzé lá pò coiso e chega à porta. Abriu a porta, andava o gajo: taruz! Taruz!
Patrão – É pá! O que é que você anda a fazer?!
Trabalhador – Ó patrão! Ando a acertar o relógio que isto 'tá tudo descontrolado!
José Manuel, 87 anos, Brotas, (conc. Mora), Junho 2007.