O julgamento da açorda
Ali ao pé de Pavia havia uma herdade que chamavam a herdade de São Miguel e tinha lá uma igreja que até era a igreja de São Miguel.
Haviam esses homenzinhos que andavam aí, noutro tempo, com uma mula, de monte em monte, a comprar peles de coelho, peles de ovelha, cera... E atão um dia passou lá à porta da igreja e 'tava a igreja aberta. E disse o homem assim:
– Oh! Vou aqui dar volta à igreja, a ver como é que isto 'tá aqui!
O homenzinho entrou, deu a volta à igreja, chegava ao pé de um santo e ia assim:
– Ah! Toma lá dez réis!
Bom, chegava ao pé d' outro:
– Toma lá dez réis!
E atão visitou os santos todos e deu dez réis a cada um. Quando vinha a sair à porta da igreja, 'tava um atrás da porta! E disse ele assim:
– Ah! Ainda aqui estás tu, atrás da porta?! Toma lá também dez réis! – Bom, abalou, foi-se embora.
Chegou além a uma aldeia que chamam a Aldeia da Serra, dormiu lá e mandou fazer uma açorda(7) com meia dúzia de ovos! Bom, comeu a açorda, dormiu... No outro dia, vai procurar contas à mulher lá da venda (que nesse tempo eram vendas na' eram cafés), disse--lhe a mulherzinha assim:
– Olhe, a conta 'tá aqui já feita. Custa tanto...
Uma conta muito grande! E disse-lhe o homem assim:
– Eh, minha senhora! Atão eu agora na' tenho dinheiro pa' lhe pagar! Atão, uma conta tamanha de uma açorda!
Vendeira – Olhe, vossemecê comeu meia dúzia de ovos... Esses ovos, eu deitava-os a uma galinha, tiravam pintos... Essas frangas ó'pois punham mais ovos ... Chegava a pontos que era muito e, atão, tem que fazer a conta a essa coisa toda...
O homenzinho, coitadito, abalou. E disse-lhe ela assim:
– Olhe! Tem prazo de tantos dias pa' pagar! Se ao fim de tantos dias na' pagar, eu vou pò tribunal e vossemecê tem de pagar!
Bom, o homenzinho abalou, coitadito, muito esmorecido, ca mula pela arreata por aí fora, por aí fora...
Um belo dia, faltava já uns dois ou três dias só pra ser a audiência e o homenzinho muito triste lá pa' estrada afora... E vinha um gajo a cavalo num cavalo. Chegou ao pé dele, disse-lhe ele assim:
– Ó tiozinho! Você vai tão triste!
Comerciante – Ora! Deixe-me lá homem! Atão eu... Aconteceu-me isto assim, assim... Mandei fazer uma açorda com meia dúzia de ovos, a mulher puxou-me esta conta assim, assim... Tiravam pintos e coisas!
Cavaleiro – Ai, é?! Atão e quando é que é a sua audiência?
Comerciante – Ah! A minha audiência 'tá em ser depois de amanhã.
Cavaleiro – Na' se incomode que eu é que lá vou ser o seu advogado. Sou eu! – Bom, o homem abalou já mais tranquilo da vida dele.
Bom, no dia da audiência 'tava a mulherzinha dos ovos cozidos, 'tava o Doutor Juiz, estava aquela gente toda... E o gajo nunca mais aparecia! O juiz tinha terminado a audiência pràs dez horas. Eram já dez e um quarto e o advogado na' aparecia!
Bom, daqui a nada, chega o ajudante lá do juiz à janela e disse:
– Olhe! Ó Sr. Doutor Juiz! Já aí vem o homem!
Bom, vinha o gajo a cavalo no cavalo. Entrou (deixou o cavalo lá fora, preso ali a uma árvore), entrou pra dentro do tribunal e disse-lhe o Doutor Juiz assim:
– Atão? O senhor na' sabia que isto que era pàs dez horas?!
Cavaleiro – Ó Sr. Doutor! Desculpe lá, mas eu estive a cozer um molho de favas pa' semear!
E o juiz disse-lhe assim:
– Atão?! Favas cozidas também nascem?!
O advogado disse-lhe assim:
– Atão e ovos cozidos? Também tiram pintos?!
Juiz – Ó minha senhora, olhe, 'tá a audiência acabada!
Pronto! O homem defendeu o outro ali num instante!
José Manuel, 87 anos, Brotas, (conc. Mora), Junho 2007.