Os dois irmãos
Eram dois irmãos: um era estudante e o outro era um charragáz qualquer... E atão aquele que era charragáz andava sempre com um alforge às costas, *fazia colheres de pau* e coisa, andava sempre a fazer aquelas engenhocas.
Um belo dia, disse para o irmão que era estudante:
– Ó irmão! Queres ir lá a casa do moleiro, pedir a filha em casamento?!
Estudante – Ah! Vamos agora pedir a filha!!!
Cabreiro – Vamos! Pedir a filha em casamento que eu também quero casar!
Estudante – Bom, 'tá bem!
Bom, aquele que era estudante todo bem-posto(6), todo preparado, e o outro com o alforge às costas... Chegaram lá a casa do moleiro, lá trataram da ceia (nesse tempo era ceia, na' era jantar), que era prò depois, no fim, terem a conversa de pedir a filha em casamento. O que é que havia de ser pà ceia? Umas *papas de farinha de trigo*. Prantaram uma colher a cada um. Aquele que era charragáz meteu a mão ao alforge, puxou de uma colher de pau e aventou(10) com a colher que era lá de casa do moleiro para cima da mesa e com a colher de pau dele é que foi *malhar as papas*... Bom, o outro, coitadito, que era todo estudante, cheio de vergonha já daquilo.
E atão sobrou um prato de papas e a mulher lá do moleiro meteu-as lá numa gaveta. Lá foram e tal e lá passaram o serão. Bom, foram-se deitar. Lá às tantas da noite, começou aquele que era charragáz a dizer prò irmão:
– Ó irmão! Tenho fome! – A ceia tinha sido valente...Eram umas papas! – Tenho fome!
Estudante – Ó pá! Cala-te homem! Eu já estou cheio de vergonha de ti!
Cabreiro – Mas eu tenho fome!
Estudante – Olha, tens fome vai lá onde a velha deixou as papas, lá dentro da gaveta. Trá-las e come-as!
Bom, a casa do moleiro era assim uma parede e tinha três portas: tinha uma que era onde eles 'tavam deitados, tinha outra que era o quarto da filha e tinha a outra onde 'tavam o moleiro mais a mulher. Bom, o gajo vinha com as papas na mão. Chegou lá, já nem trouxe o prato! Aquilo 'tavam já frias, prantou-as em cima da mão e vinha a comer mesmo de cima da mão. No lugar de entrar prò quarto dele, entrou prò quarto da velha e do velho!
'Tava a mulher do moleiro co rabo de fora das mantas e o gajo começou a andar de roda do cu da mulher e dizia-lhe até assim:
– Ó irmão! Queres papas?
E a velha abanou o rabo – pfffffff! Deu uma bufa! E dizia-lhe o charragáz assim:
– É pá! N' assopres que elas 'tão frias, homem! Come papas, homem! Isso sim!
Até que o gajo zangou-se: truz! Deu com as papas no cu da velha e abalou porta afora. Foi pò quarto onde 'tava o irmão. Daqui a bocadinho começou a dizer pò irmão:
– Ó irmão, eu tenho sede!
Estudante – Eh! *Raios ta partam*! Cala-te, homem!
Cabreiro – Tenho sede, homem! Quero beber água!
E atão o velho 'tava a dormir, estendeu a mão por cima do cu da velha e achou a velha toda cheia de papas. Disse-lhe assim:
– Eh, mulher! 'Tás toda cagada! As papas fizeram-te mal! 'Tás toda esborteada! Vai-te lavar lá pò açude! – Aquilo tinha o açude que era onde o moinho trabalhava.
Bom, a velha lá levantou-se, foi pò açude ali co rabo de fora, a rebaixar-se ali no açude...
Cá o charragáz começou a dizer pò irmão que tinha sede...Disse-lhe o irmão assim:
– Olha! Vai lá aos cântaros, bebe água e foge por aquela porta, que eu fugo já aqui por esta!
Bom, o cabreiro chegou lá (o cabreiro ou o charragáz), meteu a mão dentro do cântaro pra ver se ele tinha água – ó'pois já não foi capaz de tirar a mão! Abalou com o cântaro na mão direito ao açude.
Chegou lá 'tava a velha a lavar o rabo no açude, pensava que aquilo que era uma pedra – truz! – com o cântaro no cu da velha! A velha – trás! – pra dentro do açude!
Bom, o moleiro (já há muito tempo que na' aparecia a velha) chegou lá ao açude, andava a velha co rabo prò ar! Disse o moleiro assim:
– Eh pá! Na' sei se é uma abóbora ou se é o cu da 'nha mulher!
Pronto! Acabou-se a história!
José Manuel, 87 anos, Brotas, (conc. Mora), Junho 2007.