Os avós
«Eu conheci os meu avós
quando ainda era garoto.
Mas quando brincava com eles,
diziam que eu era maroto.
Diziam: - vai prà(1) caminha,
tu precisas de dormir!
Eu queria era brincadeira,
prà cama não queria ir!
- Larga essa brincadeira!
E vai prà cama já!
Eu, um pouco à minha maneira,
fingia que ia pra lá.
Dizia: - vou pò(2) quarto!
E ia prà rua a brincar!
Até tirava os sapatos
pa’ não me ouvirem andar!
A minha avó ia ao quarto
a ver se eu estava a dormir.
Eu tinha ido embora,
sem que me vissem sair!
Foi espreitar prà rua
a ver se eu lá estava.
*Deitava-me logo a luva*(3)
e o meu rabo é que pagava!
Mas batia-me devagarinho,
era só a fingir que me batiam.
E eu começava a chorar
a fingir que me doía.
Eram muito bons pra mim,
tratavam-me muito bem.
Agora que estão no Céu(4),
que Deus os trate assim também!»
Francisco Moura, Idanha-a-Nova, Setembro de 2010
Glossário:
(1) Prà – “para a” (contracção da preposição pra com o artigo ou pronome a; uso popular e coloquial).
(2) Pò – “para o” (abreviatura oral, de uso informal e coloquial).
(3) Deitava a luva – agarrava, prendia.
(4) Céu – lugar para onde vão as almas do justos, dos santos e onde estão os anjos.
Na construção deste glossário consultaram-se: http://www.priberam.pt.http://www.infopedia.pt