[A serenata]
«Eu queria também contar uma, já com estes colegas, então já tocávamos todos.
Naquele tempo - isto já há cerca de sessenta e oito anos, à volta de setenta anos, que isto se passou -, na Zebreira(1), havia o hábito dos rapazes solteiros oferecerem serenatas(2) às raparigas com que queriam namorar ou já namoravam. Era um hábito(3)! E, então, nós, tocadores, juntávamos todos e íamos dar as serenatas. Era só a partir da meia-noite!
E, então, uma noite, fomos dar uma serenata, [risos], a uma rapariga que ficava aí uns duzentos metros do cemitério. Na Zebreira, o cemitério fica ao pé de uma baixa. E a rapariga morava ali, junto à igreja, um bocadinho cá mais alto. [Risos]. Começamos.
E as serenatas eram assim: as serenatas eram compostas por três músicas! E, se, por qualquer motivo, só fossem duas ou uma, era uma desfeita grande para a rapariga! Tinham que ser as três! Completas! - Então, chegava-se à porta das raparigas, davam-se três pancadas na porta, com muita força, [risos]. E vinham. É claro, quem tinha janela, muito bem! Quem não tinha, ouvia as músicas dentro de casa.
Bom, e lá estávamos nós. Numa noite tão escura, tão escura, que nós, nós uns com os outros, não nos víamos! Naquele tempo, ainda estava muito longe de haver luz eléctrica na Zebreira! [Risos]. De forma que era uma noite muitíssimo escura! E íamos a meio da serenata, da segunda música, e começamos a ouvir um barulho infernal! Uma coisa fora do normal àquela hora! Como disse à pouco, as serenatas começavam, sempre, a partir da meia-noite!
Aquele barulho era uma coisa louca! - É que, naquele tempo, as ruas, [risos], (não só aquela que ia directa ao cemitério), a calçada(4) era já muito antiga: eram altos e baixos, altos e baixos, pedras por aqui, pedras por ali, etc. - E a gente começou a ouvir aquele barulho… Uma coisa louca! Uma coisa louca mesmo! E a gente olhávamos uns para os outros e com medo! Bem, nós tínhamos que tocar três músicas! ‘Távamos no meio da segunda e, é claro, não queríamos dar o desgosto ao rapaz de não dar as três serenatas! O barulho começou a ser tanto, tanto, tanto! Aquilo era o inferno que vinha por aquela rua acima! E digo eu assim:
- Eh, rapazes! Fujam! Que vêm aqui *almas do outro mundo*(5)!
Fugiu tudo! Corremos para os lados da praça. Mas, quando ia correndo, eu faço assim, [olhou por cima do ombro], e vejo uma espécie de um vulto, atrás da igreja, a querer-se levantar, assim… Aquilo, é como disse: escuridão completa, mas via-se uma coisa de nova, assim um bocadito mais claro! E digo assim:
- Parece que há ali qualquer coisa!!! Acho que há ali… - Que eles já estavam fora do perigo, porque a gente ouvia aquela barulheira infernal era para os lados do cemitério! Pa’(6) rua acima!
Imediatamente fomos lá. Cercámos o fulano(7)! Era, então, um fulano que andava também pra(8) querer namorar com a mesma rapariga! E queria dar o dissabor(9) da serenata não ir até ao fim. [Risos]. Veja bem: tinha um rolo de fio enrolado a um braço, atou-o, as pontas do fio, lá, junto ao cemitério… - Naqueles tempos, usava-se muito o *cântaro de zinco*(10)! - Eram cântaros velhos: uma grande porção de cântaros velhos (e depois tinham a parte da asa), tudo atado naquele fio. E aquela barulheira, que a gente ouvia, era uma data de cinco ou seis cântaros, assim presos, cada qual pela sua asa! Apanhavam a rua toda, por aí acima, a bater nas paredes, nas pedras, nas poças! De formas que era aquele grande barulho… E, então, era ele que estava a dar cabo da serenata! E a ideia daquele homem! A gente chamava-lhe, por alcunha(11), o Bocage(12)…»
João Sousa, Zebreira, Idanha-a-Nova, Setembro de 2010
Glossário:
(1) Zebreira – vila e freguesia do concelho de Idanha-a-Nova, situada na região Centro de Portugal, sub-região da Beira Interior Sul, distrito de Castelo Branco.
(2) Serenata – execução instrumental ou vocal feita à noite, em frente à casa ou sob a janela de alguém; também o nome dada a uma composição simples e melodiosa, feita de maneira a poder ser tocada numa serenata.
(3) Hábito – uso, costume.
(4) Calçada – conjunto de pedras que revestem uma rua ou caminho; rua empedrada.
(5) Almas do outro mundo – fantasmas; espectros.
(6) Pa’ – abreviatura de “para” (usadade modo informal e coloquial).
(7) Fulano – pessoa incerta (uso coloquial).
(8) Dissabor – causar contrariedade, desprazer, aborrecimento.
(9) Pra – o mesmo que “para”(redução da preposição para usadade modo informal e coloquial).
(10) Cântaro de zinco – Vaso grande, de bojo largo e arredondado, com gargalo, com uma ou duas asas, feito de folha, para armazenar líquidos.
(11) Alcunha – nome que se usa no lugar do nome próprio de alguém ou que é acrescentado a esse nome e que respeita a alguma característica física ou moral do indivíduo ao qual se atribui.
(12) Bocage – Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805), poeta português.
Para a execução deste glossário consultaram-se: http://aulete.uol.com.br; http://bemfalar.com; http://www.infopedia.pt; http://www.priberam.pt; http://www.significadodepalavras.com.br