Tristes novas
«Tristes novas, tristes novas, me chegaram da Espanha.
Está Dom João a morrer, nas Covas de Salamanha(1).
Está Dom João a morrer, nas Covas de Salamanha.
Eram médicos e cirurgiões, sem nenhum lhe dar a vida.
Veio um médico mais velho, deu-lhe três horas de vida.
Veio um médico mais velho, deu-lhe três horas de vida.
Uma pra(2) se confessar, outra pra bem da su’ alma,
outra pra se despedir, da Dona Isabel amada.
Outra pra se despedir, da Dona Isabel amada.
Sua mãe lhe procurou: - Deves honrar mulher honrada!
- Devo à Dona Isabel, que me de mim anda ocupada.
- Devo à Dona Isabel, que me de mim anda ocupada.
- Deixo-lhe trinta bocados, prà(3) ajuda da desgraçada.
- Deixa-lhe tu outros trinta, que a honra nunca é paga!
- Deixa-lhe tu outros trinta, que a honra nunca é paga!
Quando nesta razões ‘tavam, Dona ‘Sabel que chegava.
- Donde vens, Dona Isabel? Minha roseira abonada(4)?
- Venho de pedir à Virgem(5) que seja nossa advogada.
- Essas tuas pedições(6) já te não valem de nada.
- Tenho meu tempo cumprido, a minha vida acabada.
- Tenho meu tempo cumprido, a minha vida acabada.
- Duas coisas te vou pedir, à hora da minha morte,
se for mulher seja freira(7), se for homem sacerdote(8),
quando estiver a dizer missa, que se lembre da minha morte.»
Maria Clara, Idanha-a-Nova, Setembro de 2010