Memoria Imaterial CRL
Instituto de Estudos de Literatura e Tradição - patrimónios, artes e culturas

M E M O R I A M E D I A

e-Museu do Património Cultural Imaterial

Brincar na eira

nome:
Maria dos Remédios Francisco
   
freguesia:
Matacães
concelho:
Torres Vedras
distrito: Lisboa
data de recolha: 02/2010
   
 
 
 

Dados de inventário
  • Brincar na eira
  • Torres Vedras

    "Brincar na eira"- Relato da alegria de brincar descalça no campo.

    Maria Francisco, Ano de nascimento 1939, Matacões, Torres Vedras, Registo 2010.

Transcrição
  • Brincar na eira

     

    O casal do meu avô era lá num deserto, era só fazendas… E estava lá no alto, na eira. Eles debulhavam o trigo era com os trilhos. E eu gostava muito de andar em cima dos trilhos a guiar os burros. Andava-se… para os burros andarem ali à volta com o trigo, para retraçar o trigo, para depois eles, com umas pás e uma corquilhas de madeira, que levantavam a palha ao ar para ficar o trigo. E depois ia uma mulher para lá joeirar com um crivo grande. Ia para lá joeirar, escolher as sementes – a velhaca, essas coisas das ervas que estavam misturadas no trigo. E a palha era recolhida dentro do palheiro, tirava-se umas telhas ao telhado e era forquilhada lá para dentro do palheiro.

    Eu gostava tanto lá dessas coisas! Não tinha com quem brincar, estava lá no casal… Quando a minha avó saía, que eu ficava sozinha, ia lá para dentro. Ia buscar a roupa dela, vestia a roupa dela, os sapatinhos de salto alto… Arranjava umas meias, enchia-as, fazia duas bolas, atava assim. Arranjava ali um par de mamas e salto alto – lá ia eu brincar para a eira sozinha! E outras vezes ia para lá brincar descalça. Quando eu ia descalça, o meu avô disse:

    - Eu não te quero na eira descalça!

    Mas tinha lá uma terra tão boa… Nem é areia nem é terra, é uma terra areada, assim uma coisinha fofinha… Muito eu gostava de ir para ali brincar para aquela terra. Um dia, já tinha sido avisada mais do que uma vez, eu só dei pelo meu avô quando ele me agarrou o braço e espeta-me duas palmadas:

    - Toma lá que é para não seres teimosa. Porque eu já te disse que não te quero descalça, porque não quero que as pessoas que passam aqui…

    Que aquilo era só fazendas, não havia nada, só os burros, as carroças, as pessoas que passavam… Fazia algum mal? Mas ele não queria, porque como eu não era de lá, não queria que dissessem que eu não andava calçada porque não tinha calçado. Era essa a diferença. Eu tinha aqueles sapatinhos feitos de cabedal, com umas orelhazinhas ali com atacador, engraxados com a ferrugem da panela – aquilo ficavam ali bonitos! Eu nunca andei descalça. Mas como nde lá, era daqui de longe e as pessoas que passavam lá podiam não saber se eu tinha ou não. E ele não queria que andasse descalça porque não queria que as outras pessoas que eu que não tinha calçado. Mas eu gostava tanto, mas tanto… Que apanhei e ficou-me de emenda.

     

    Maria Francisco, Torres Vedras, Registo 2010.

     

     

     

Caracterização
    • Episódios da história de vida - Práticas Culturais
Identificação
  • Brincar na eira
  • Maria Francisco
  • 1939
Contexto de produção
Contexto territorial
  • Matacães
Contexto temporal
Manifestações associadas
Contexto de transmissão
  • Estado de transmissão
    • activa
  • Relatos partilhados em encontros, festas e actividades promovidas pelo Município e Junta de Freguesia

Equipa responsável
  • Filomena Sousa
  • José Barbieri
  • Ana Sofia Paiva
  • Documentário - Realização Filomena Sousa

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