A carta dos soldado
Da minha terra começaram a ir pra Angola, prà guerra. Os rapazes, quando estavam lá, pra passarem o tempo, escreviam muitas cartas, era a única maneira de… Arranjavam madrinhas de guerra e outras amigas… Outros já tinham mesmo namoradas, mas alguns começavam por madrinhas de guerra e acabavam por ser namoradas! O meu caso, quando casei com o meu marido, foi assim. Não o conhecíamos, não era da minha terra, era de Salvaterra do Extremo, e um amigo, lá da minha terra, que ‘tava com ele em Angola, deu-lhe a minha morada e começou-me a escrever (por madrinha de guerra até).
Escreviam-se. Escreviam às raparigas. Houve uma vez um, lá na terra, que mandou, escreveu (isto foi logo nos primeiros que foram, ainda no principio) uma carta prà(1) mãe e escreveu outra pà(1) namorada.
Tiraram fotografias, que mandou: uma, num envelope, pà namorada e outra pà mãe. Enganou-se! Enganou-se nas fotografias. A que havia de meter pà namorada, meteu na carta da mãe, a que havia…
A mãe recebeu a carta e, quando viu a fotografia, ela já era assim, pronto, via mal e… Olhou para a fotografia, quando olhou pà fotografia, começou a choramingar e disse:
- Ai, filho, filho! Sempre me saíste um desmanzelado(2)! Com a barba por fazer e a gravata ao lado!
Maria Luísa, Zebreira (Idanha-a-Nova), Setembro de 2010
Glossário:
(1) Prà/pá – “para a” (prà: contração da preposição pra com o artigo ou pronome o; uso popular e coloquial).
(2) Desmanzelado: desmazelado (que não cuida da própria aparência; desleixado).
Na construção deste glossário consultaram-se: http://aulete.uol.com.br;http://www.priberam.pt.