Amiga, vou-te dizer
Amiga, vou-te dizer
isto é me’mo(1) realidade.
Custa muito uma ausência
para quem ama na verdade.
Quem tem o pensar medido
e que ama mesmo de coração,
pois sofre grande paixão
quando vê o futuro perdido.
Eu sei que tenho sofrido.
E mais do que isto na’(2) pode ser.
Também devo saber que como eu sofri,
tu já sofreste
e porque é que na’ me escreveste?
Amiga, eu vou-te dizer.
Partiste em mim a pensar.
É verdade, acredita,
eu quando li a tua escrita
deu-me vontade de chorar.
Tu dizeres que na’ tinhas lar
para estares à tua vontade.
E a ver-te nessa dificuldade
ser muito bem dorida
custa-me os dias da vida.
Isto é mesmo realidade.
Ando triste e aborrecido
por de ti não saber nada.
Eras em mim tão elevada
e agora dás-me por esquecido.
Sou da sorte desproduzido(3)
e sem mãe era criança.
Agora tiraste-me a tua presença
que alegrava o meu rosto.
Para quem ama e faz gosto
custa muito uma ausência.
Quem se ponha bem a pensar
e que tenha consideração
um desprezo sem razão
é muito mau de suportar.
E quem ama, por gostar,
‘tá(4) sempre cheio de saudade.
E se aparece uma falsidade
aonde(5) motivo não existe,
é uma acção muito triste
para quem ama na verdade.
Luís Ricardo, Grândola, Fevereiro de 2007
Glossário:
(1) Me’mo – mesmo.
(2) Na’ – não.
(3) Desproduzido – desprovido.
(4) ‘Tá – abreviatura oral de “está”.
(5) Aonde – onde, em que.