Não gastem dinheiro comigo
Quando morrer não preciso
de ir bem vestido e calçado.
Não comprem coisas pa’(1) apodrecer
porque é um dinheiro *mal empregado*(2).
Eu tenho roupa aguardada
ainda não a estreei
e alguma quando a comprei
foi logo pra(3) isso destinada.
Nesta palavra sagrada
fica aqui um aviso:
eu ainda não estou inciso(4).
Já disse e vou repetir:
que comprem roupa para me vestir
eu quando morrer não preciso.
Ninguém depois da morte
agradece aquilo que lhe dão.
Eu quero é um caixão
com a madeira bem forte.
Com o resto ninguém se importe.
E ninguém fique preocupado.
Que eu tenho tudo guardado
das calças à camisa.
E para debaixo da terra não precisa
ir bem vestido e calçado.
Façam dupla sepultura
onde ‘tá(5) a mãe, o mano.
Mais ano, menos ano
vai para lá a minha figura.
Ponham-me o retrato na moldura
para quem me quiser ir lá ver.
Fazem como eu estou a dizer.
No dia do enterro
fiquem antes com o dinheiro
não comprem coisas p’ apodrecer.
Enquanto eu for vivo
façam o melhor que possa ser
eu estou cá pa’ agradecer
seja qual for o motivo.
Mas no momento decisivo
que eu já esteja amortalhado(6)
e depois do caixão fechado
façam assim como eu digo:
não gastem dinheiro comigo.
É um dinheiro mal empregado.»
Luís Ricardo, Grândola, Fevereiro de 2007
Glossário:
(1) Pa’ – abreviatura oral de “para”.
(2) Mal empregado – mal aplicado.
(3) Pra – abreviatura oral de “para”.
(4) Inciso – ferido, logo, no caso, está são.
(5) ‘Tá – abreviatura oral de “está”.
(6) Amortalhado – morto e vestido com o trajo com que irá a sepultar.
Para a execução deste glossário consultaram-se os seguintes websites: http://bemfalar.com; http://www.priberam.pt; http://aulete.uol.com.br; http://www.infopedia.pt/