O ser poeta é um destino
O ser poeta é um destino
Deus nos dá ao nascer.
Mas analfabeto faz diferença
do poeta que sabe ler.
Quem sabe faz por escrita.
E apontar pra(1) na’(2) se esquecer.
E ainda vai ao livro ver
se a palavra está bem dita.
E quem não sabe só palpita.
Põe as palavras *a tino*(3).
Mas começa logo em pequenino
a andar à roda dos cantores.
Prà’qui não há professores.
O ser poeta é um destino.
Quem nasce com este brasão(4)
e que traga a ideia pura,
sem ter nenhuma cultura,
é uma pessoa de habilitação.
Colocar as palavras como elas são
pra toda a gente perceber.
Quem nasce com este prazer
faz cantigas em qualquer mote(5).
Porque isto é um dote(6)
que Deus nos dá ao nascer.
Aquilo que diz fica dito,
esteja bem ou esteja mal.
Mas aqui o principal
é ser exacto ao que está escrito.
Isto é um dote muito bonito
que a gente traz à nascença.
Quem o traz toda a vida pensa,
ora de noite, ora de dia.
Mas no fazer da poesia
o analfabeto faz diferença.
Nunca traz nada apontado,
porque ele na’ sabe apontar(7).
Também não pode justificar
se está certo ou está errado.
Nunca é um poeta apurado(8).
Não pode mesmo ser.
Mas tem é que se defender
quando alguém o atacar.
Mas na’ se pode comparar
com um poeta que sabe ler.
Luís Ricardo, Grândola, Fevereiro de 2007
Glossário:
(1) Pra: abreviatura oral de “para a”.
(2) Na’: abreviatura oral de “não”.
(3) A tino: a olho; por estimativa.
(4) Brasão: em sentido figurado significa glória, honra, capacidade.
(5) Mote: estrofe cujo sentido serve de tema ao poema; tema; assunto.
(6) Dote: dom natural, qualidade intelectual.
(7) Apontar: escrever, tomar apontamentos.
(8) Apurado: perfeito, sofisticado, requintado.
Para a execução deste glossário consultaram-se os seguintes websites:http://www.ciberduvidas.com;
http://aulete.uol.com.br; http://www.infopedia.pt; http://www.priberam.pt