Com muito custo
«Com muito custo, mas consegui
aproximar-me da burguesia,
comer e beber e na’(1) fazer nada
e dormir até ao meio-dia.
Já me deito descansadinho,
sem ter aquela preocupação,
seja de Inverno ou de Verão
eu ao trabalho já não alinho.
Eu nasci pobrezinho,
sou pobre desde que nasci
e os bens que eu adquiri
foi de tanto descontar
e dos ricos me aproximar,
com muito custo, mas consegui.
Também já tenho veículo
para quando quiser andar a cavalo.
Eu já vivo num regalo
quase imitante ao rico.
Até a casa aonde eu fico
é uma boa moradia.
Eu fiz tudo aquilo que podia,
trabalhei que nem um louco.
Fui indo de pouco a pouco
aproximei-me da burguesia.
Tenho ainda é pouco dinheiro
que é isso o principal,
por isso não faço vida igual
e nem vou passear ao estrangeiro.
Mas cá, no país inteiro,
eu dou muita passada.
Eu tenho uma vida encantada
mesmo com poucas regalias
e já passei quase todos os dias
e como e bebo e na’ faço nada.
E já me posso entreter
às noites mais um bocado
e pois vou-me deitar descansado
e durmo até me apetecer.
Quando me alevanto é para ir comer
E depois de comer vou correr a coxia.
Era isto que eu previa,
comecei a juntar papéis
para me entreter à noite nos cafés
e dormir até ao meio-dia.»
Luís Ricardo, Grândola, Fevereiro de 2007
Glossário:
(1) Na’: abreviatura oral de “não”.