[Falas do Auto da Paixão]
«- Ia Jesus, aproximou-se dela, e ela disse:
[N. Sra. Em resposta a Cristo:]
Filho meu, e meu amor,
de temor estou cercada,
estou tão cheia de dor
que não sei, Filho e Senhor,
como seja consolada.
Que fico desamparada
de esposo, filho e senhor,
nesta vida tão cansada,
tão cheia de temor.
[N. Sra. em diálogo com Cristo:]
Filho meu, por tantas vezes,
pedi oração ao Pai.
Filho meu, não desprezes
os abraços, choros e preces
desta tua triste mãe.
[N. Sra. pergunta a Verónica:]
Vistes por aqui passar o meu Filho?
A quem tanto eu amava? - E depois lá vem a Verónica e outras, mas em proporção…
E depois:
[N. Sra. Em resposta a Cristo:]
Filho meu, e meu amor,
de temor estou cercada,
estou tão cheia de dor,
que não sei, Filho e Senhor,
como seja consolada.
Que fico desamparada,
triste, só e sem ninguém,
nesta vida tão cansada,
por vós Filho amargurada
de ser sempre me convém.
[N. Sra. em resposta a Cristo:]
Pois não se pode escusar
a esta tão triste partida,
mas quero-vos Filho abraçar
para que vos queirais lembrar
da minha tão triste vida.
[N. Sra. pergunta a Verónica e outras:]
Vós outras que passais
por esta vida mesquinha,
rogo-vos que me digais
se tendes penas mortais
tamanhas como estas minhas?
[N. Sra. em resposta a S. João:]
Ai, dolor, dolor, dolor!
Ai, dolor! Tanta tristeza!
Como posso triste ouvir
que meu filho há-de subir
à Cruz, e tão cruel morte!
Ó que esperança terei,
triste, mais triste que todas!
Com quem me consolarei,
pois meu Filho que gerei
lhe deram tão tristes bodas!
Vós outros que passais
por esta vida mesquinha,
rogo-vos que me digais
se tendes penas mortais
tamanhas como estas minhas?
Vós outras, todas mulheres,
vede que consolação,
que alegria e que prazer
que manjar e que comer,
que triste novas
me dão de meu filho?
Aquele que não tem Pai,
em graças feições reais,
sobre as virtudes lustrosas…»
Maria Vara, Vimioso, Outubro de 2010