O Pastor e a Cobra
Era um pastor que andava com o gado. E despois(1) o gado começou-se-lhe a deitar por o meio do dia (que já estiava(2), já aquecia ao sol).
E ele diz assim: - E eu vou-me a deitar também! - E deitou-se.
E nisto, viu um grande fogo perto das canhonas(3). E ele que te faz? Alebanta-se(4) (e tinha uma pá na cabana pra dormir) e agarrou a pá e foi então lá: então a querer estroncar(5) as silvas, mas não era capaz de as estroncar com a pá.
E vai ele pôs-se a um seixo(6) grande que ali estava, um seixo lá no meio das silvas, e arrancou assim um molho de água ali por baixo. Aquela água ele depois, com a pá, arretalhou(7) aquela água por aquele fogo e apagou o fogo.
E nisto, apagando o fogo, saiu de lá uma grande cobra e diz-lhe pra ele:
- Em recompensa de me poupares a vida, tens a recompensa… – Ele ficou atrapalhado.
Cobra - E que queres de recompensa?
Pastor – Nada!
Cobra - Tu fizeste isto por muito bem: poupaste-me a vida, que eu senão ficava ali queimada. E, agora, diz-me o que queres. Tenho três coisas pra te dar: olha – a terceira já não me lembra, uma coisa qualquera(8), diz: - a primeira é que vais a compreender os pássaros todos, o que querem dizer; a segunda: os animais que andam no campo quando cantarem, quando qualquer (a) coisa, tu sabes o que dizem. Vais a saber entender tudo! Mas não te deixes levar! O dia que descobrires isto eu digo (…).Portanto, não descubras(10) a ninguém!
Ele, todo atrapalhado, foi pró(9) gado. E chegou ao gado, berrou um cordeiro.
E diz ele: - Olha, mal dele era o desgraçado…Em baixo do seu cordeiro c’roado está um grande tesouro de diamantes. E que grande riqueza lá está! - Tornou a continuar, disse aquilo três vezes! - Em baixo do cordeiro c’roado está um grande tesouro de ouro e diamantes.
E depois, diz assim: - Ai! Mas olha que… Já me vou experimentar! - Agarrou a pá, levantou o cordeiro e, em baixo do cordeiro, o rapaz fez assim uns rascanhos(11) com a pá.
E, ao outro dia, foi lá escavar a ver o que havia ali. Tirou terra e, esse que tirou a terra, encontrou um grande seixo lá em baixo da terra. E, em baixo daquele seixo, estava lá um grande tesouro de diamantes e de brilhantes, tudo! Tudo do que era bom. (…) Era grande a riqueza!
À noite, foi-se a deitar.
A mulher - Olha, mas tu hoje estás mais alegre do que das outras vezes. Mas a ti que te passa?
Ele: - Tenho uma coisa pra(12) dizer, mas não sei como ta hei-de dizer.
[Mulher:] - Adepois dizes-ma! Eu a ti também ta dizia! - Tornaram-lhe a dar: - Conta-me o que tu tens pra dizer, que estás (…) contente!
Mas ele nada!
E nisto, entretanto, cantou o galo.
E diz o galo 1 - Que estás praí a escantarolar(13)?
Galo que canta - Sei se, amanhã, vai a morrer o nosso patrão! - E a’pois, pronto, acabou.
Dali a outro bocadico, tornou a cantar.
E diz-lhe o outro galo - Que estás a escantarolar?
Galo que canta - Amanhã vai morrer o nosso patrão.
E diz-lhe o galo preto, diz assim: - Se morre é porque quer! Que ele passa, dá-lhe uma picada grande a ele na cabeça… E um pontapé no rabo, [n]o galo! E o galo fugiu para o outro lado… Ele que lhe faça assim e a mulher que ó’pois(14) já não lhe torna a perguntar!
Olha! Assim foi. Assim foi! Ele se havia de contar à mulher, não! Deu-lhe um pontapé e uma punhaça(15) na testa. A mulher foi pra outro lado, não tornou mais a perguntar!
Ainda lá estão a viver!
Maria Amélia Guerra, Mora, Vimioso, Outubro de 2010
Glossário:
(1) Despois – “depois” (modo informal e coloquial, reprodução da pronúncia).
(2) Estiava – já haviam passado as chuvas, estava tudo mais seco e sereno.
(3) Canhonas – ovelhas velhas.
(4) Alebanta-se – “alevanta-se, levanta-se” (trocar o “b” pelo “v” é um traço fonético comum nos dialectos do Norte do Portugal).
(5) Estroncar – separar do tronco, decepar.
(6) Seixo – pedra dura, lisa, com arestas arredondas pela água.
(7) Arretalhou – no caso, sulcou a terra e fendeu as águas.
(8) Qualquera – “qualquer” (modo informal e coloquial, reprodução da pronúncia).
(9) Prò – “para o” (contração da preposição pra com o artigo ou pronome o; uso popular e coloquial).
(10) Descubras – reveles.
(11) Rascanhos – arranhaduras, sinais que ficam na parte arranhada.
(12) Pra – “para” (redução da preposição “para”usadade modo informal e coloquial, reprodução da pronúncia).
(13) Escantarolar – cantarolar.
(14) Ó’pois – “depois” (modo informal e coloquial, reprodução da pronúncia).
(15) Punhaça – murro, soco.
Para a execução deste glossário consultaram-se: http://www.priberam.pt;http://www.infopedia.pt;http://aulete.uol.com.br;
http://www.ciberduvidas.com/pergunta.php?id=8163; http://www.clul.ul.pt/equipa/mcruz/segura.pdf; Barros, Vítor Fernando. (2006). Dicionário do falar de Trás-os-Montes e Alto Douro. Âncora Editora e Edições Colibri. P.90, 299, 323,