O genro bêbado
Havia uma rapariga que começou a namorar um rapaz logo de mocinha. E o rapaz, muito bom rapaz, fez-se homem e afinal deu em meter-se em bebida. E aquilo já não era *nada de jeito*(1).
Começou a mãe:
– Ó filha deixa-te disso! Tu não vês o resultado daquilo?! Na’ vês que o rapaz que *não dá meia para a esquerda*(2)?! É só beber, só beber!
Filha – Ah! E diga lá, atão(3)… Mas eu até gosto tanto dele! E há tantos anos que eu namoro.
Mãe – Mas é o mesmo! Havia de haver outro que tu gostasses…
Bom, a mãe toda zangada com a filha. Bom, mas ela pensou que havia de namorá-lo, foi sempre namorando. Até que um dia, veio e disse ela:
– Olhe, o Zé quer casar já este ano.
Mãe – Olha agora é que a gente fica bem! Ora um bêbado daqueles! E quer casar!
Filha – Sim, senhora!
Mãe – Nem casa hão-de ter! Comigo não ficam! – Isto era a mãe. – Comigo não ficam! Arranjem casa que comigo não ficam.
Filha – Ora! Atão diga lá… Olhe a vizinha Alice – a mulher tinha ido pra fora, prò estrangeiro – aluga aqui a casa à gente.
*Paredes meias*(4) com a mãe, mesmo ao pé da mãe. Disse ela:
– Olha *ainda mais essa*(5)! Ainda se fossem lá pra longe, ainda era comó outro(6)! Agora ficam-me aqui mesmo ao pé!
Filha – Atão, diga lá… Ele quer ficar mesmo aqui... Ele arranjou aqui a casa. A vizinha Alice empresta-lhe a casa e fica aqui.
Bom, trataram do casamento. Casaram e ficaram lá nesse sítio à mesma.
O rapaz logo em princípio de casado portou-se bem nessa altura, mas depois começou na mesma: sempre bêbado, sempre bêbado…
Uma noite, vem de lá, se havia de ir prà casa dele foi prà da sogra. Eram paredes meias. Deitou-se com ela e passou lá o resto da noite. Só se levantou quando eram horas de ir já prò trabalho. Levantou-se e ela – nem nada! Desejando vir a manhã pra dizer à filha o que ele andava fazendo.
Bom, assim que ele abalou(7) ela veio cá a casa (viu que ele já tinha ido para o trabalho) e disse:
– Atão! Tu sabes bem?! O desavergonhado do teu marido?! Atão foi pra lá, deitou-se comigo, abusou de mim e apois, de manhã, é que se veio embora!
Filha – Atão e você na’ lhe disse nada?!
Mãe – Eu não! Atão há dois anos que eu não falo com ele!
Ele fez-lhe poucas-vergonhas (8) e tudo e ela na’ lhe disse nada porque não falava com ele!
Olívia Brissos, Beringel (conc. Beja), Fevereiro de 2006.
Glossário
(1) Nada de jeito: refere-se no caso a pessoa sem valor da qual pouco se espera.
(2) Não dá meia para a esquerda: não consegue; não evolui.
(3) Atão: regionalismo de Portugal, de uso informal e coloquial que significa “então”.
(4) Paredes meias: separado com uma parede;paredes comuns a edifícios contíguos.
(5) Ainda mais essa! Expressão que designa uma notícia mal recebida ou considerada prejudicial.
(6) Ainda era como o outro! Ainda era aceitável.
(7) Abalou: foi-se embora.
(8) Poucas-vergonhas: actos vergonhosos; imoralidades.
Para execução deste glossário consultaram-se os websites e dicionários: http://www.priberam.pt/; http://www.infopedia.pt; http://www.ciberduvidas.com; http://acll.home.sapo.pt/portugues.html; Simões, de Guilherme Augusto. (2000). Dicionário de Expressões Populares Portuguesas.2ª. Edição, Dicionários D. Quixote; 34. Lisboa: Publicações D. Quixote, p. 44 e 457.