Aprende a ser educado
«Aprende a ser educado.
E aprende a ser educado.
Aprende a ser educado.
E aprende a ser educado.
Tantas vezes na tua cama
em que eu te ouvia chorar
eu depressa te ia buscar,
prà(1) tua mãe te dar mama.
Pois é longa a tua fama
de seres um grande malcriado.
Tu foste por mim beijado
acredita, e possas crer
hoje já me queres bater!
Aprende a ser educado.
No tempo te dei de vestir.
Esse tempo já passou.
E quem na vida te ajudou
hoje queres os dentes partir.
És falso no sorrir
quando vais a qualquer lado.
Foste por mim beijado
acredita, e possas crer
hoje já me queres bater!
Aprende a ser educado.
A tua fama ao longe soa
do caso que aconteceu.
O teu pai, cunhado e amigo meu,
que era uma jóia de pessoa.
Atão(2) morava na Alagoa,
e em Melides baptizado,
era por todos abraçado,
fosse aqui ou fosse além.
E tu respeita quem te quer bem!
Na’(3) sejas mal-educado.
Será triste a tua sina
porque és falso no coração.
Porque na’ respeitas a situação
de qualquer pessoa grande ou pequenina.
Tens ideia de menina
de certo que ‘tás(4) errado.
Não podes ser perdoado
porque és uma má criatura.
Mas pra que na’ te chegue a noite escura
aprende a ser educado.»
Paulatino Augusto, Grândola, Fevereiro de 2007
Glossário:
(1) Prà: abreviatura oral de “para a”.
(2) Atão: regionalismo de Portugal, de uso informal e coloquial que significa “então”.
(3) Na’: abreviatura oral de “não”.
(4) ‘Tás: abreviatura oral de “estás”.