O rico e o pobre
«Para que no mundo haverá?
Há tanta desigualdade
o pobre de fome morrer
e o rico sempre à vontade.
No nascer somos iguais,
no morrer tal e qual.
‘Tarem(1) tantos a viver mal,
mas todos com os mesmos sinais.
Digo a vocês e a outros que mais
e até falo para mim, sei cá
todos temos que ir pra lá
para a nossa terra sagrada.
Uns com tanto e outros sem nada,
porque é que no mundo haverá?
Feitos da mesma matéria
somos todos com certeza.
Uns com tanta riqueza
e outros com tanta miséria.
É a palavra mais séria
é mais séria que a verdade.
Andam tantos de má vontade
pelo mundo a sofrer.
Por isso não devia de haver
tanta desigualdade.
Se o rico pensasse bem
Isso do ser bem, bem pensasse,
porque se o pobre não trabalhasse
o rico não era ninguém.
O rico tem mais de cem.
Riqueza a apodrecer.
Mas do pobre não quer saber
só o vai é espicaçando.
O rico sempre gozando,
o pobre de fome a morrer.
Se eu mandasse no destino,
no destino pudesse mandar,
todo o rico tinha que trabalhar
juntamente ao Paulatino(2).
Talvez que houvesse mais dinheiro
não havia tanta maldade
e nem tanta falsidade
se acabasse com essa baralha(3).
Mas à custa de quem trabalha
o rico ‘tá sempre à vontade.»
Paulatino Augusto, Grândola, 2007
Glossário:
(1) ‘Tarem – abreviatura oral de “estarem”.
(2) Paulatino – o autor.
(3) Baralha – confusão.