Encruzilhadas
«Na'(1) acredito em bruxas. Não tenho medo delas. Na' penso nelas. É como o medo: o medo há pequinino(2), há grande, há maior. O medo é conforme nós o fazemos.
Mas houve uma coisa quando eu era solteira, lá na minha aldeia, houve uma garreia(3) entre dois homens numa venda(4).
E um disse prò(5) outro:
- Deixa estar que ainda te hei-de de encontrar! Ainda te hei-de encontrar numa encruzilhada(6), duma estrada. (...) - Por causa de uma partilha(7).
(...) E o outro ficou c' aquilo(8) na cabeça.
- *'Pera lá*(9)! Eu trabalhando no monte(10), eu passo a esta encruzilhada. E eu, quando passo lá, já é de noite, e o bicho vai-me lá esperar... E ele vai-me lá dar uma boa sova.
(...) Mas *po' sim, po' não*(11), lá no monte onde estava, uma noite, pensou assim:
- 'Pera lá... Eu vou arranjar aqui... (...) um porróte(12). Por o sim, por o não(11), eu vou levar isto, porque se ele 'tiver(13) à minha espera aí na estrada, ou lá onde ele disse, falou numa encruzilhada, pode me 'tar à espera de lá, de mim.
Bem, aquilo passou uma noite ou duas e na' aparecia ninguém. Na' chegava o dia, porque ele tinha que ter um dia escolhido.
Muito bem que vinha, numa sexta-feira, andando, vê um vulto (...). Da encruzilhada. Um vulto. Diz ele assim:
- Ah! Malandro! (...) É ele que está aí... É ele que está ali! (...) Ma'(14)... Eu agora vou e na' faço mai'(15) nada... (...) Dou-*le*(16) uma porrada! Que o enrolo logo! - Pensou aquilo!
(...) Mas quando ia a chegar ao pé do vulto, levou um coice(17)! (...) No peito. (...) Derrubou-o logo! (...) Ele endireitou-se e agarra a moca e dá-le em dar porradas. - Mas viu que não era uma pessoa! (...) Viu que era um animal! Que estava ali! - Assim que se pôde safar...
Ele, o outro, ficou deitado com as mocadas(18) que apanhou. E ele foi pra(19) casa.
Ele, no outro dia, foi pro(5) trabalho.
À noite, na venda...
- Ah! O Fernando nunca foi trabalhar...
- O que é que aconteceria?
- Nunca foi, nunca apareceu lá ao trabalho. (...)
Na' disse nada, mas pensou assim:
- 'Pera lá! O meu cunhado, faltar ao trabalho?! Alguma coisa se passou.
Foi pra casa. Chegou a casa, disse assim:
- Escuta lá! Atão(20)? O marido da tu' mana, nunca foi trabalhar, atão? 'Tá doente?
- Ah! Parece que caiu, ficou mali(21), e a minha irmã teve que perder o dia, pra ir com ele ao hospital!
Diz ele assim:
- Caiu e ficou mal! Atão, teu irmão disse-me isto *assim, assim*(22); fez-se em burro, em tal parte...
Olhe, conforme era as mocadas, assim eram os vergões(23) que ele tinha.
Ilda Martins, Beja, Outubro de 2010
Glossário:
(1) Na' – não (houve supressão da acentuação e do o para reproduzir pronuncia popular, uso coloquial).
(2) Piquenino – pequenino.
(3) Garreia – discussão, briga.
(4) Venda – taberna, mercearia da aldeia ou estabelecimento modesto onde se vendem refeições mais baratas.
(5) Prò/Pro – para o (contração da preposição pra com o artigo ou pronome o; uso popular e coloquial).
(6) Encruzilhada – lugar onde vários caminhos se cruzam (dois ou mais).
(7) Partilhas – determinação do que cabe a cada pessoa numa divisão de bens materiais (herança, lucros, património).
(8) C' aquilo – com aquilo (houve supressão de om para manter a pronúncia).
(9) 'Pera lá! – Espera lá! – expressão que, no caso, denota a realização de uma conjectura, de uma suposição, uma pausa para colocar as ideias em ordem ou estabelecer um plano. Houve supressão do es para manter a pronúncia, uso coloquial.
(10) Monte – regionalismo do Alentejo - «Cada herdade, com raríssimas excepções, contém uma casa ou edifício denominado monte - talvez por ser construído sempre no alto duma colina ou ondulação do terreno, - no qual, além da parte destinada à habitação do proprietário e do seu feitor, ou guardas, existem os celeiros, as arrecadações da ucharia ou dos aparelhos agrícolas, as cavalariças, o forno, a abegoaria, etc. Em algumas herdades há, ainda, outras casas, alugadas aos jornaleiros ou criados da lavoura, designados então por caseiros, - termo de sentido bem diverso do que lhe compete ao norte do Tejo, onde significa feitor.» (Gonçalves:1921:128-129).
(11) Po' sim, po' não / Por o sim, por o não - pelo sim, pelo não (para prevenir, para acautelar).
(12) Porróte – bordão, cacete com ponta arredondada.
(13) 'Tiver – estiver (pronúncia popular do verbo "estar" conjugado, uso coloquial).
(14) Ma' – mas (supressão do s para reprodução de pronúncia, uso coloquial).
(15) Mai' – mais (houve supressão do s para reproduzir a pronúncia, uso coloquial).
(16) -Le – lhe (pronome, registo popular e modo informal).
(17) Coice – pancada dada com as patas traseiras por um animal (que assenta as quatro patas no chão).
(18) Pra – para (redução da preposição "para", sua forma sincopada,usadano registo popular, informal).
(19) Mocadas – pancadas.
(20) Atão – então, regionalismo de Portugal, de uso coloquial.
(21) Mali – mal (houve acrescento do i para manter a pronúncia popular).
(22) Assim, assim (disse-me isto) – isto e aquilo; desta e daquela maneira;
(23) Vergões – lesões na pele deixadas por uma pancada.
Referências bibliográficas e recursos online utilizados no glossário:
Barros, Vítor Fernandes & Guerreiro, Lourivaldo Martins. (2005). Dicionário de Falares doAlentejo. Porto: Campo das Letras p.100.
Barros, Vítor Fernandes, (2006). Dicionário do Falar de Trás-os-Montes e Alto Douro. Lisboa: Edição Âncora Editora e Edições Colibri, p.254.
Fradinho, Manuel Gomes. (1933). Maneiras de dizer alentejanas. Revista Lusitana, Volume XXXI, Lisboa: Livraria Clássica Editora, p. 111.
Gonçalves, Luís da Cunha. (1921). A vida Rural do Alentejo. Breve estudo léxico-etnográfico. II - O regime da propriedade rural. A terra e a habitação. O lar e a alimentação. Sistema usual de explorar a terra. Os salariados e os salários. Horário do trabalho rural (pp.128-136). Academia das Sciencias de Lisboa. (1926). Boletim da Classe de Letras (Antigo Boletim da Segunda Classe). Actas e Pareceres Estudos, Documentos e Notícias. Volume XV. 1920-1921. Coimbra: Imprensa da Universidade (p.128-129).
Nunes, José Joaquim. (1902). Dialectos algarvios. Revista Lusitana, Volume 7, Lisboa: Antiga Casa Bertrand, p.125.
Pombinho Júnior, J. A. (1935). Vocabulário alentejano — (Subsídios para o léxico português) — (continuado do vol. XXVI, pág. 83). Revista Lusitana, Volume XXXIII, Lisboa: Livraria Clássica Editora, p. 168.
Ribeiro, José Diogo. (1930). Linguagem popular de Turquel. Revista Lusitana. Volume XXVIII. Lisboa: Livraria Clássica Editora. P.230.
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