O rico e o pobre
«Numa manhã *necetada* [necessitada] levantou-se um pobrezinho,
à porta do rico foi pedir esmola.
O rico lhe perguntou: — Que vens aqui fazer?
E ele le(1) respondeu: — Queria um bocadinho de pão para comer.
Logo foi, naquela hora, que o rico ia almoçar,
o rico, como soberbo, os cães lhe foi açudar(2).
A criada, como boa, o certo é ela ganhar.
Morreu o rico e o pobre, foram-se os dois enterrar,
o rico a um cantinho e o pobre ao pé do altar.
Na sepultura do rico nasceu um fogo infernal,
na sepultura do pobre uma fonte industrial.
? Bem podias tu, ó pobre, bem podias, se quisesses,
dar-me uma gotinha de água da tua fonte industrial.
Que as chamas deste me’(3) fogo e acho que elas abaixar.
? Deixa-te lá ‘tar(4), ó rico, lá no teu fogo infernal,
que as sobras do teu almoço nunca mas quisestes dar.
A criada, como boa, o certo é ela a ganhar.
— Quem me dera ir ao mundo! – Dizia o rico.
Quem me dera ir ao mundo! Quem me dera lá chegar!
Queria educar os me’s(5) filhos pra que nunca façam tal!
— Deixa-te lá ‘tar os te’s(6) filhos, deix’ ós(7) acabar de criar.
Lá há padres pregadores pòs(8) te’s filhos educar.
Mas isto é cantado e em todas as palavras diz assim:
Deixa-te lá estar, ó rico, nesse teu fogo infernal
e ai, Jesus!
É. Isto é cantado. Mas só que a minha voz na’…
[Informante 2:] ? Não, mas esse bocadinho já dá pa’(9) se perceber.
[Informante 1 (MB):] ? Na’ dá pra isso, ‘tá a ouvir?»
Mariana Bicho, Beja, Outubro de 2010
Glossário:
(1) Le – lhe (pronome, registo popular e modo informal).
(2) Açudar – açular (incitar os cães a morder).
(3) Me’ – meu (supressão da vogal u para reprodução da pronúncia, uso informal e coloquial).
(4) ‘Tar – estar (pronúncia popular deste verbo, uso coloquial).
(5) Me’s – meus (houve supressão da vogal u para reprodução da pronúncia, uso coloquial).
(6) Te’s – teus (houve supressão da vogal u para reprodução da pronúncia, uso coloquial).
(7) Deix’ós – deixa os (houve supressão do a de deixa e acentuação de os para reprodução da pronúncia).
(8) Pòs – para os, forma sincopada de prós (contração da preposição pra com o artigo ou pronome no plural os, uso popular e coloquial).
Referências bibliográficas e recursos online utilizados no glossário:
Barros, Vítor Fernandes, (2006). Dicionário do Falar de Trás-os-Montes e Alto Douro. Lisboa: Edição Âncora Editora e Edições Colibri, p.254.
Barros, Vítor Fernandes, (2010). Dicionário de Falares das Beiras. 1ª. Edição. Lisboa: Âncora Editora e Edições Colibri, p.243.
Nunes, José Joaquim. (1902). Dialectos Algarvios (Lingoagem do várlavento) (Conclusão). Revista Lusitana: Arquivo de Estudos Filológicos e Etnológicos Relativos a Portugal, (1ª Série), Volume VII, Lisboa: Antiga Casa Bertrand. pp. 250.
Vasconcelos, José Leite de/Centro de Linguística da Universidade de Lisboa. Dicionário de Regionalismos e Arcaísmos (DRA). Em linha, URL/PDF, p.720.
http://aulete.uol.com.br;http://michaelis.uol.com.br;http://www.ciberduvidas.com; http://www.priberam.pt