A solteirona
(1)
(…) Era uma mulher que era ali de Vale de Açougue, que vieram prà’qui(2). (...) E ó’pois(3) era solteirona... Era solteirona e a’pois(4) (…) não casava!
Mas ela assim: - Olha, eu vou à missa!
(…) E havia sacristão(5)! - Agora na’(6) há sacristão! (…) O padre começou:
- Senhor do Rosandáiro(?)...
- Casai-me cedo. - Dizia ela.
E ó’ depois o sacristão disse assim:
- Não casas, não! - O sacristão.
E ela assim: - Caluda! A mãe ‘tá(7) calada e o badameco(8) do moço é que ‘tá conversando! - Que era o que a santinha tinha ao colo! O moço! Que a santinha tinha ao colo... Um boneco que a santinha tinha ao colo.
- Caluda!(9) A mãe ‘tá calada e o moço...O badameco do moço é que ‘tá conversando! - Pensava qu’o(10) boneco da santa é que… (…) falava!
Idalina Cacito, Beja, Abril de 2010
Glossário:
(1) Solteirona – mulher de meia-idade que é solteira, que não casou (aumentativo feminino de solteira).
(2) Prà’qui – para aqui.
(3) Ó’ pois – “depois” (modo informal e coloquial, reprodução da pronúncia).
(4) A’pois - “depois” (modo informal e coloquial, reprodução da pronúncia).
(5) Sacristão – «Homem que tem a seu cargo a sacristia, o arranjo de uma igreja, servir de ajudante à missa, etc.»
(6) Na’ -não (pronuncia popular, uso coloquial).
(7) ‘Tá – “está”- pronúncia popular do verbo “estar”, abreviatura oral, de uso informal e coloquial.
(8) Badameco – rapaz atrevido; criança malcriada.
(9) Caluda! – Silêncio!
(10) Qu’o – que o.
Referências bibliográficas e recursos online utilizados no glossário:
http://www.ciberduvidas.com; http://www.priberam.pt; http://www.infopedia.pt;http://aulete.uol.com.br.
Pombinho Júnior, J. A. (1938). Vocabulário alentejano (subsídios para o léxico português). Revista Lusitana. Volume XXXVI. Lisboa: Livraria Clássica Editora. pp. 210-211.