[Corre, corre cabacinha]
Havia também uma velhota que vivia num monte(1). E depois foi *à da filha*(2) e ia por o mato afora, *tira-tira, beco-beco(3)*, chegou lá adiante, encontrou um lobo.
Lobo – Agora como-te! – disse o lobo. – Tem paciência, mas agora como-te!
Velha – Ai, não! Olha na’ me comas agora, que eu vou ao casamento da minha neta e já venho mais gorda! Nessa altura já me comes, mas agora ainda estou tão magrinha! Na’ vale a pena!
Lobo – Atão(4) ‘tá bem.
Bom e tudo falava nessa altura: falavam os lobos e falavam as velhas.
Abalou(5) a velhota, tira-tira, beco-beco, foi à da filha. Bom, chegou lá, houve o casamento da neta. Quando acabou isso, disse ela:
– Ai! Diga lá, agora… Como é que eu agora vou pra casa?! Atão o lobo ‘tá aí à minha espera! Ele disse logo que me esperava.
Familiar – Ai, na’ senhora! Espere que a gente temos aqui uma cabaça(6). A gente arranja-lhe aqui a cabaça e você vai dentro!
‘Tiveram raspando aquilo tudo e meteram a velha na cabaça. Bom, abalou rebolando e encontrou o lobo. Disse ele:
– Ó cabacinha, não viste pràí uma velhinha?
Cabaça – Eu na’ vi nem velhinha, nem velhão! Corre, corre cabacinha, corre, corre cabação!
Lá abalou rebolando, rebolando e, pronto, o lobo ficou à espera. E ela abalou rebolando, rebolando foi pra casa.
Também deve ser verdade, esta!
Olívia Brissos, Beringel (conc. Beja), Fevereiro de 2006.
Glossário:
(1) Monte: regionalismo do Alentejo. Sede de herdade formada por vários edifícios em torno de um pátio; designação por vezes atribuída à própria herdade.
(2) Ir à da: ir à casa de alguém, no caso, à casa da filha (expressão do Alentejo).
(3) Tira-tira, beco-beco: «Um andamento qualquer que a gente… A minha neta quando eu vou lá é que me diz:
– Atão? A avó atão já vai tira-tira, beco-beco? Cantando muito calada, n’ é verdade? – Pois, atão agora vou cantando muito calada. É uma maneira de dizer.» (Olívia Brissos, Beringel, Fevereiro de 2006).
(4) Atão: regionalismo de Portugal, de uso informal e coloquial que significa “então”.
(5) Abalou: foi-se embora.
(6) Cabaça: espécie de abóbora normalmente com a forma do algarismo 8 que, depois de despojada das sementes e completamente seca, pode ser usado como vasilha para líquidos.
Para execução deste glossário consultaram-se os websites: http://www.ciberduvidas.com; http://www.infopedia.pt; http://motoxaparros.webs.com/comodizquedisse.htm; http://www.priberam.pt/; http://acll.home.sapo.pt/portugues.html