Santo António padrinho
«Era um homem que tinha muito filho (…) tinha já tanto filho, tanto filho, já na’(1) sabia (…) quem é que havia de convidar pa’(2) padrinho(3).
Vai, disse assim: - Oh! Onde é que eu hei-de ir convidar pa’ padrinho? (…)
- Outro moço, filha? Olha(4), atão(5), olha… – Era um homem que rachava lenha. E diz ele assim: - Olha! Convidamos *Santo Antóino* (6)!
Convidou o Santo Antóino. O home’(7) convidou o Santo Antóino, disse assim:
- Bom, ela vai ter uma mocinha-mulher. - Era uma mocinha!
Diz ela assim: - Atão, agora? Como é que *a gente(8)* faz as coisas?
- Bom… É moça, mas a gente põe-*le*(9) António! E em tendo onze anos, vai correr mundo. (…)
- Ah! Atão, mas…
- Veste a roupa de rapaz (…) corta o cabelo e vai correr mundo!
Foi! Foi, chegou ao pé de um monte(10) e disse:
-(…) Veja lá se quer que eu que eu fique aqui guardando os porcos ou os patos…?
Disse: - Na’, não podes que a gente já temos um.
Mas chegou à casa do rei, ficou. (…) - Mas era uma rapariga. Era pa’ ser António, era Santo António que era o nome do padrinho, mas ficou Antónia porque era uma mocinha, era uma rapariga! Já era uma mulher muito bonita (…) - Ele ficou lá trabalhando e guardando os porcos, guardando os patos… (…) A rainha começasse a apaixonar (…) por ele! Que era António! Pensava que era António, via lá uma cara muito bonita de mulher!
Começou a dizer: - António…
Pensou a mulher assim: - Ai, ai!
E foi lá ao rei: ‘tava(11) deitado!
E o padrinho disse-lhe: - Quando te veres nalguma aflição, brada(12) por Santo António!
Bom, ele: - Valha-me aqui o me’(13) padrinho ou valha-me Santo António!
Bom, ela foi disse assim: - Escuta, vinha cá (…)… - mas ela, coitadinha, era mulher, o que é que queria que fizesse?! - Eu quero ser tua amante… (…) - Nem sempre, na’ era amante: era amigas! (…) – Quero correr amizade contigo – era o que diziam nesse tempo. - Agora eu ‘tou amando, ‘tou enamorado, ‘tou eu amado – tou *na’ sei quê*(14)… Mai’(15) nesse tempo (…) corria a amizade!
E ela disse: - Ai, na’ posso! Na’ quero, na’ quero! Senão o senhor rei manda-me matar!
E vai, diz ela assim: - Ouve(?)! Vou fazer queixas ao rei!
Fez queixas ao rei! O rei, no outro dia, disse-le:
- Agora, tens que ir buscar a minha filha que ‘tá dentro do mar!
Disse assim: - Valha-me aqui Santo Antóino!
E ele apareceu e disse: - Então? ‘Tire lá(16)!
(…) - A rainha agora quer ser minha amante! E diz que quer que eu vá buscar a filha! ‘Tá dentro do mar! – ‘Tava um anel da filha, ‘tava dentro do mar. E a filha ‘tava encantada nesse anel!
(…) – Tu agora pedes um cavalo branco. E um escuro! E tu montaste no escuro e leva o branco! (…) E venha aqui Santo António! Depois vem a pombinha!
E ele chegou lá, a esse sítio, e foi disse: - *Valha-me aqui*(?) Santo António!
Apareceu a pombinha! A pombinha foi lá dentro e trouxe um anel! Ele vai, joga o anel (…) àquela pessoa que ‘tava ali à janela. Ela ficou em (…) princesa *do mar/mai’(?) lindo que apareceu*(?). Assim que o viu, apaixonou-se por ele! Mas ela era muda! Ela era muda. Era muda e depois ele dizia assim:
- (…) Atão, e é muda, como é que?
– Deixa lá, que já se vê já hoje!
Ela era muda! Mas quando foram, conforme se montaram nos cavalos, ele montou-se num castanho e ela no branco.
E ela disse assim: - Ai, delas!
Chegou lá, (…) ‘tava o povo levantado pa’ chegar a rainha que era muda!
- Ai, diz lá isso…
E ela dizia: - Ela na’ fala! Tu és morto! Ela na’ fala! – (…).
E ó depois ela disse: - Diz lá, diz lá!
E ele disse: - Menina, diga lá a palavra que a menina disse quando se montou no cavalo!
Diz ela assim: - Disse “ai, delas!” Que no cavalo vinham duas donzelas! - Ela disse: - “Ai delas e ai, Dom/dão(?)! Ai delas e ai Dom/dão(?)”!
- Diga a outra!
- Ai, Dom/dão(?)!
- Sou o António!
- Se a Antónia fosse António já o meu pai era cabrão(17)!
(…) Foi assim! (…) Contava-me estas coisas assim a Ti(18)Chica!
Idalina Cacito, Beja, Abril de 2010
Glossário:
(1) Na’ - não (pronuncia popular, uso coloquial).
(2) Pa’ – “para” (em próclise, usadode modo informal e coloquial).
(3) Padrinho – o protector, defensor e que foi testemunha de baptismo; o que deu o nome a alguém.
(4) Atão – “então”, regionalismo de Portugal, de uso informal e coloquial que, no caso, denota espanto.
(5) Olha – Interjeição empregue para chamar a atenção de alguém. Escuta! Presta atenção!
(6) Santo Antóino – Santo António (pronuncia popular).
(7) Home’ – homem (reprodução de pronúncia popular).
(8) A gente - subentende-se o sujeito “nós”.
(9) -Le – ‘lhe’ (pronome, registo popular e modo informal).
(10) Monte – regionalismo do Alentejo - «Cada herdade, com raríssimas excepções, contém uma casa ou edifício denominado monte - talvez por ser construído sempre no alto duma colina ou ondulação do terreno, - no qual, além da parte destinada à habitação do proprietário e do seu feitor, ou guardas, existem os celeiros, as arrecadações da ucharia ou dos aparelhos agrícolas, as cavalariças, o forno, a abegoaria, etc. Em algumas herdades há, ainda, outras casas, alugadas aos jornaleiros ou criados da lavoura, designados então por caseiros, - termo de sentido bem diverso do que lhe compete ao norte do Tejo, onde significa feitor.» Gonçalves, Luís da Cunha. (1921). A vida Rural do Alentejo. Breve estudo léxico-etnográfico. II - O regime da propriedade rural. A terra e a habitação. O lar e a alimentação. Sistema usual de explorar a terra. Os salariados e os salários. Horário do trabalho rural (pp.128-136). Academia das Sciencias de Lisboa. (1926). Boletim da Classe de Letras (Antigo Boletim da Segunda Classe). Actas e Pareceres Estudos, Documentos e Notícias. Volume XV. 1920-1921. Coimbra: Imprensa da Universidade (p.128-129).
(11) ‘Tava –“estava” ( pronúncia popular do verbo “estar” conjugado).
(12) Brada – chama por; pede em voz alta.
(13) Me’ – “meu” (supressão da vogal u para reprodução da pronúncia, uso informal e coloquial).
(14) Na’ sei quê – no caso, estado indefinido ou incerto.
(15) Mai’ – neste caso “mas”.
(16) ‘Tire lá! – atire lá; diga lá!
(17) Cabrão – homem traído pela esposa (vulgarismo).
(18) Ti - tia - forma de tratamento que, em Portugal e sobretudo na província, no campo, é usada para mulheres de certa idade e de condição modesta.
Referências bibliográficas e recursos online utilizados no glossário:
Barreiros, Fernando Braga. (1917). Vocabulário barrosão. Revista Lusitana, Volume XX, Lisboa: Livraria Clássica Editora, Lisboa. p. 141.
Barros, Vítor Fernandes, (2006). Dicionário do Falar de Trás-os-Montes e Alto Douro. Lisboa: Edição Âncora Editora e Edições Colibri, p.254.
Barros, Vítor Fernandes, (2010). Dicionário de Falares das Beiras. 1ª. Edição. Lisboa: Âncora Editora e Edições Colibri, p.243.
Nunes, José Joaquim. (1902). Dialectos Algarvios (Lingoagem do várlavento) (Conclusão). Revista Lusitana: Arquivo de Estudos Filológicos e Etnológicos Relativos a Portugal, (1ª Série), Volume VII, Lisboa: Antiga Casa Bertrand. pp. 250.
Vasconcelos, José Leite de/Centro de Linguística da Universidade de Lisboa. Dicionário de Regionalismos e Arcaísmos (DRA). Em linha, URL/PDF, p.720.
http://aulete.uol.com.br; http://aulete.uol.com.br; http://ciberduvidas.sapo.pt; http://michaelis.uol.com.br; http://www.ciberduvidas.com; http://www.infopedia.pt; http://www.mirandadodouro.com/dicionario; http://www.priberam.pt