[A morte da Condessa]
«Era um pai que tinha sete filhas e ó depois casaram todas. Só ficou uma, que era a mais velha, que era Maria. (E tinha um Conde, que trabalhava pò(1)rei…).
Dizia o rei:
? O que queres tu, minha filha? O que queres, Dona Maria?
- Sete filhas que o me’(2) pai teve, só sou eu a solteirinha…
? Como queres qu’ eu te case com tamanha assenhoria(3)? –
Com o Conde, real Conde, que é casado e tem família?
? Manda-o, meu pai, chamar, pelo criado que havia.
Ainda a reza não é dita, já quando à porta batia.
? Vossa Alteza que me quer? Vossa Alteza que me queria?
? Quero que mates a Condessa e cases com Dona Maria.
? A condessa na’ mato eu, que’la(6) a morte na’ merecia!
Mandára(7) pòs pais, que ainda a aceitaria!
? Mata-a Conde, mata-a Conde, não me tomes(?) demasias.
Quero que tragas a cabeça nesta dourada bacia.
O conde assim que ouvi chorando e lamentando pà(8) sua casa seguiu.
(…) Assim que lá chegou (…) a condessa lhe sorriu.
? Não! Não sorrias condessa. Não, não sorria para mim,
(…) A tristeza que me vale? Sou obrigado a casar com ela!
E ela tinha (…) tinha tido um menino com um mês.E ó’pois ela dizia:
? Mandai-me pra me’s pais! Ou mandai-me pràs brinhas(10), que os bichos me comeriam?
? Isso não, condessa! Não, que isso tudo ela adiria(11)!
Quer que leve a sua cabeça nesta dourada bacia. ? Nesta excomungada bacia, dizia ele!
Lá abalou pa’ ir casar com a (condessa) [princesa].
Ela, coitadinha, ficou no jardim muito triste. No outro dia (…) ia ser morta. (…) ‘Tava(12) dando de mamar ao mocinho e dizia assim:
- Mamai, me’ filho, mamai esta pinga de Veneza,
que amanhã, por estas horas, és filho de uma princesa!
E ó’pois o mocinho dava outra volta, dizia:
- Mamai me’ filho, mamai esta pinga de amargura,
que amanhã, por estas horas, ‘tá a tua mãe na sepultura.
Mas quando isto, ouviu-se o sino da corte. E diz ela assim:
- Ouve-se o sino da corte ? Ai meu Deus, quem morreria?!
Respondeu uma criança que ainda falar na’ sabia!
? Morreu a cria do rei chamada Dona Maria.
Descasar os bens casados, foi coisa que Deus na’ queria!
Morreu e nunca casou. E ele sempre ficou com ela! Né(13) engraçado, estas coisas assim? Né?»
Idalina Cacito, Beja, Abril de 2010
Glossário:
(1) Pò – “para o”, forma sincopada de prò (contração da preposição pra com o artigo ou pronome o), uso popular e coloquial.
(2) Me’ – meu (redução para reprodução da pronúncia, uso informal e coloquial).
(3) Assenhoria – senhoria ? tratamento que se dava à alta nobreza; excelência.
(4) Na’ – “não” (pronuncia popular, uso coloquial).
(5) Ó’pois – “depois” (modo informal e coloquial, reprodução da pronúncia).
(6) Qu’ela – que ela.
(7) Mandará – mandai-a; mande-a (verbo mandar, pronúncia popular).
(8) Pà ?“para a” (abreviatura oral, de uso informal e coloquial).
(9) T’isteza – tristeza.
(10) Brinhas – brenhas (manteve-se a pronúncia) – mata espessa; matagal.
(11) Adiria – percebia, juntaria, somaria os factos (neste caso específico).
(12) ‘Tava –estava ( pronúncia popular do verbo “estar” conjugado).
(13) Né? – não é? Contracção do advérbio ‘não’ e da forma verbal ‘é’ – “não é”?
Referências bibliográficas e recursos online utilizados no glossário:
http://aulete.uol.com.br; http://michaelis.uol.com.br;http://www.ciberduvidas.com; http://www.infopedia.pt; http://www.priberam.pt