Namoro com Dom Carlos
«Uma (…) [rapariga?] que namorava um rapaz (era Conde). E depois o pai na’(1) queria... E ele, coitado, queria *fazer pouco*(2) dela - nesse tempo era “pouco” que chamavam.
E ele disse: - Ai, não! Não... Essa noite há-de dormir…- Com ele... E eles iam a jogar... (…) Iam prà(3) aqueles clubes, iam jogar.
Ele, primeiro, dizia-lhe assim: - Felizarda, Felizarda... - Ela era Felizarda.
- Felizarda, meu amor, bem podias tu, Felizarda, dormir comigo ao redor.
E ó’ pois(4) ela disse: - Eu dormiria consigo, se não me fosse gabar à mesa dos galderistas(5)(?), onde me’ pai vai jogar! – Que o pai é jogatina(6)! (…) -Do gambaristas(5)!... Chamavam-lhes gabaristas(5)! - Onde o me’ pai vai jogar.
Depois ele chegou e disse: - Esta noite dormi eu com a menina Felizarda!
Era mais linda que (...)[a mãe?] e mai’ (…) cò(7) que estava.
O se’(8) pai assim que ouviu, prà casa se retirou. Sua filha assim co(9) viu a bênção lhe tomou. Ele disse:
- Retira-te, ó minha filha! Já te podes retirar!
Que as falas que eu hoje ouvi, ainda hoje vais degolar. – (…) degolar: nesse tempo matavam!
(…)E ó’ pois ela disse:
- Aqui me ponho eu, meu pai, aqui me ponho a chorar!
Haja alguns do me’s(10) criados que me possa auxiliar.
Respondeu um: - Aqui estou eu Menina, estou eu pó(11) que me quiser mandar.
- Vai-me levar esta carta à casa dos Montalvar. – Ele era Carlos Montalvar!
Depois ela disse: - Se ele ‘tiver(12) a dormir, deixá-lo bem acabar; se ele ‘tiver a passear, *vem, de noite, entregar*(?).
Em tã’(13) boa ocasião, andava ele a passear. [Disse:]
- Acudam-me me’s criados, a ferrar os me’s cavalos! Com ferraduras de bron[ze?], com que na’ se possam gretar(14): caminhada de oito dias, ainda hoje tenho de andar!
Que ela[e] só a recebeu a carta ao fim de oito dias! Já ela ia… Prà matarem! Já ia naqueles carros, (…) naquelas coisas blindadas… - *Contavam no meu tempo(?)/ quando ‘tavam no outro tempo*, - iam pà(15) forca!
Ele vestiu-se a padre e foi. E ó’ pois, chegou assim:
- Parai, Justiça, parai, se não faço eu parar!
Que a menina que aí vai, ainda vai por confessar.
No meio de uma confissão, ainda um beijo me há-de dar! -O ordigala!
E ó’ pois ela, ela assomou-se(16) e disse assim:
- Cale-se lá, Senhor Dom Padre, na’ se queira adiantar!
Onde Dom Carlos pôs boca, na’ é pra padres beijar! - Depois ela disse:
- Pelo rir, me parece Carlos de Montalvar.
- Sou eu menina, sou eu! Que à morte a vim livrar.
Com este punhal de oiro, eu o hei-de atravessar;
por uma porta há-de sair e por outra há-de entrar!
Matou o pai dela e casou co’(17) ela! Já ‘tá lá escrito (…) na’ esquece! [Risos].»
Idalina Cacito, Beja, Abril de 2010
Glossário:
(1) Na’ – não (pronuncia popular, uso coloquial).
(2) Fazer pouco – neste caso, mais que troçar, é iludir com juras de amor para obter intimidade física e afastar-se, deixando a moça “desonrada”, com a reputação denegrida.
(3) Prà – “para a” (contração da preposição pra com o artigo ou pronome a; uso popular e coloquial).
(4) Ó’ pois – “depois” (modo informal e coloquial, reprodução da pronúncia).
(5) Jogatina – viciado no jogo.
(6) Galderistas/Gambaristas/Gabaristas/ – por hipótese, gabarolas (aqueles que exageram aos outros as suas qualidades ou actos) por similitude com gabanistas, gabarristas, gabanichas – termos populares para ‘gabarola’.
(7) Cò – que o que (hipótese, por reprodução de pronúncia popular).
(8) Se’ – seu.
(9) Co – “com o” (contração da conjunção arcaica ca com o artigo ou pronome o - ca+o -; uso oral, coloquial).
(10) Me’ s - “meus” (supressão de uma vogal u, redução para reprodução da pronúncia, uso informal e coloquial).
(11) Pò – “para o”, forma sincopada de prò (contração da preposição pra com o artigo ou pronome o), uso popular e coloquial.
(12) ‘Tiver – estiver (pronúncia popular do verbo “estar”, uso informal).
(13) Tã’ – tão (de tal modo).
(14) Gretar – rachar; fender; desconjuntar.
(15) Pà – “para a” (abreviatura da contração da preposição pra com o artigo ou pronome a; uso popular e coloquial).
(16) Assomou-se – irritou-se, irou-se, enraiveceu-se.
(17) Co’ – com (supressão de uma consoante, abreviatura oral por pronúncia popular).
Referências bibliográficas e recursos online utilizados no glossário:
Barros, Vítor Fernandes & Guerreiro, Lourivaldo Martins. (2005). Dicionário de Falares do– Alentejo. Porto: Campo das Letras p.97.
Barros, Vítor Fernandes, (2010). Dicionário de Falares das Beiras. 1ª. Edição. Lisboa: Âncora Editora e Edições Colibri, p. 211.
Vítor Fernandes, (2006). Dicionário do Falar de Trás-os-Montes e Alto Douro. Lisboa: Edição Âncora Editora e Edições Colibri, p.189.
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